- Mario Donato D’Angelo
Meu pai era médico ortopedista. Trabalhava no Rio de Janeiro e, às quintas e sábados, atendia em Petrópolis, no Hospital Santa Teresa. Naquele tempo, médico ainda era uma espécie de extensão da cidade. Não era apenas alguém que tratava doenças. Era alguém que conhecia famílias inteiras, tristezas antigas, acidentes domésticos, vícios, medos e até certos silêncios que nunca entrariam num prontuário.
Em Petrópolis, todos o conheciam como doutor Donato.
Atendia todo mundo. Gente rica, pobre, operário, comerciante, senhoras elegantes, crianças machucadas, velhos teimosos e algumas pessoas que pareciam adoecer mais de solidão do que de qualquer enfermidade conhecida pela medicina.
Eu cresci sem perceber que havia qualquer coisa de extraordinário naquilo. Para mim, era apenas o modo natural como meu pai exercia a medicina.
Só mais tarde entendi que certas coisas aconteciam diante de mim com tamanha naturalidade que eu jamais havia percebido o quanto eram incomuns.
Fazia parte da rotina daquele consultório um pequeno ritual silencioso.
Quando uma pessoa não podia pagar a consulta, simplesmente não pagava. Não havia constrangimento, sermão humanitário ou pose de santo. Ele atendia da mesma maneira e a conversa seguia adiante como se aquilo fosse apenas mais uma coisa natural da vida.
Mas existia algo ainda mais extraordinário.
Muitas vezes ele receitava um remédio e o paciente, já na porta, meio sem jeito, confessava:
“Doutor eu não tenho dinheiro pro medicamento.”
Então começava uma pequena conspiração humana montada entre dois homens pouco adaptados às regras modernas do mundo.
Do outro lado da rua havia uma farmácia. O farmacêutico era amigo do meu pai e aparentemente sofria da mesma incapacidade de transformar sofrimento alheio em oportunidade comercial.
Os dois haviam criado um sistema silencioso.
Meu pai fazia um pequeno sinal na receita, uma marca discreta, quase invisível. O paciente atravessava a rua, entregava o papel e saía da farmácia com o remédio sem pagar nada.
No fim do mês, o farmacêutico aparecia no consultório trazendo as receitas separadas e a nota dos laboratórios. Sem lucro. Sem acréscimo. Sem generosidade exibida.
Meu pai pagava apenas o custo dos medicamentos.
A farmácia não lucrava.
Meu pai também não.
E o paciente seguia o tratamento.
Durante muitos anos achei aquilo normal.
Jovem naturaliza até milagres quando eles acontecem frequentemente dentro de casa.
E talvez aí esteja o perigo das coisas bonitas: quando convivemos muito tempo com elas, deixamos de perceber sua raridade.
Mas talvez naquele tempo alguma coisa já começasse lentamente a despertar em mim. Certos gestos do meu pai já não me pareciam apenas hábitos da rotina. Havia neles alguma coisa que eu ainda não sabia nomear.
Foi então que um dia perguntei:
“Mas o senhor faz isso sempre?”
“Sim. Sempre fiz.”
Disse aquilo sem orgulho. Como quem comenta a chuva ou a temperatura.
Depois acrescentou:
“A medicina não é uma profissão comum. Ela lida com o homem quando a vaidade já caiu. Quando a dor ficou maior que o resto.”
Lembro perfeitamente da sala.
Do cheiro do consultório.
Da rua diante do Hospital Santa Teresa.
Da farmácia do outro lado.
Da naturalidade com que aquelas coisas aconteciam.
Naquele tempo eu não entendia.
Jovem acha que o mundo é feito daquilo que vê dentro de casa.
Hoje percebo que o que mais emociona nessa lembrança não é nenhum heroísmo. É justamente o contrário. Era a naturalidade moral dele. Meu pai não se via como alguém extraordinário. Para ele, parecia simplesmente impensável abandonar alguém sem remédio.
Talvez certas grandezas só possam existir assim: sem anúncio e sem consciência da própria grandeza.
E existe ainda outra coisa que o tempo ensina devagar aos filhos: quase sempre entendemos nossos pais tarde demais.
Só muitos anos depois percebi que havia ali uma espécie rara de dignidade. Não aquela que sobe em palanque, escreve livros sobre virtude ou faz questão de ser admirada.
Era apenas a dignidade de um médico tentando não abandonar ninguém no meio da própria doença.
E talvez por isso existam algumas riquezas que continuem vivendo apenas na memória agradecida de quem um dia atravessou uma rua com um papel na mão e voltou com um remédio e um pouco de esperança.
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