- Mario Donato D’Angelo
Acreditamos que uma pessoa parada esteja imóvel.
Não está.
Se pudéssemos ampliar o olhar, descobriríamos que, mesmo de pé, o corpo realiza uma infinidade de pequenos ajustes. Um músculo contrai discretamente, outro relaxa. O tornozelo oscila alguns milímetros. O quadril corrige uma inclinação quase imperceptível. A cabeça procura novamente o seu lugar. O cérebro trabalha sem descanso para impedir que a gravidade cobre o preço de sua permanente insistência.
Ficamos em pé porque nunca paramos de nos mover.
Chamamos de equilíbrio aquilo que, na verdade, é uma sucessão de pequenos desequilíbrios corrigidos a tempo.
É curioso como a vida gosta dessas ironias.
A marcha, por exemplo, é exatamente isso. Cada passo representa uma pequena queda para a frente que conseguimos impedir antes que se transforme numa queda verdadeira. Caminhar é confiar que o próximo pé chegará ao chão antes que a gravidade vença.
É por isso que a infância é tão bonita. A criança não aprende a andar evitando cair. Aprende caindo. O chão lhe oferece uma sucessão de fracassos até que, de repente, um dia atravessa a sala inteira como se sempre tivesse sabido caminhar.
Os adultos esquecem essa lição.
Passam a imaginar que viver seja alcançar um estado definitivo de estabilidade. Um emprego seguro. Um casamento perfeitamente harmonioso. Uma saúde permanente. Amigos que jamais mudam. Uma cidade que continue igual àquela da juventude.
Nada disso existe.
A vida inteira é feita de correções silenciosas.
Uma conversa que recompõe uma amizade. Um pedido de desculpas que chega antes do orgulho. Uma mudança de caminho. Uma renúncia. Um recomeço aos sessenta, aos setenta ou aos oitenta anos.
Quem observa uma árvore balançando ao vento imagina que ela resiste porque é rígida. A verdade é justamente o contrário. Ela permanece de pé porque cede, acompanhando o vento sem romper o tronco.
As pessoas também.
Conheci algumas que pareciam inabaláveis e desmoronaram diante da primeira tempestade. Conheci outras, aparentemente frágeis, que atravessaram doenças, perdas, guerras particulares e seguiram caminhando. Não venceram porque eram mais fortes. Venceram porque aprenderam a fazer pequenos ajustes quando a vida lhes retirava o chão.
Há uma sabedoria escondida nisso.
Os grandes desastres raramente começam grandes. Antes deles surgem discretos desvios que quase ninguém percebe. Um passo um pouco mais curto. Uma palavra que deixa de ser dita. Um abraço adiado. Um telefonema esquecido. Uma visita que fica para a semana seguinte. Pequenos desequilíbrios que deixamos de corrigir.
O corpo sabe que não pode esperar.
Quando sente que vai cair, move imediatamente um pé para ampliar a base de apoio. Não consulta ninguém. Não faz discursos. Apenas reage.
Quem dera aprendêssemos com ele.
Envelhecer significa compreender que o equilíbrio nunca foi permanecer imóvel. Sempre foi conservar a capacidade de fazer pequenos ajustes enquanto ainda existe caminho pela frente.
Dias atrás, conversava com um amigo na Praça Dom Pedro II quando meus olhos se detiveram num senhor que tinha as duas mãos apoiadas sobre a bengala, o chapéu um pouco inclinado e os olhos voltados para as árvores, como se nelas estivesse procurando alguma lembrança.
Quem passava por ali via apenas um homem esperando.
Eu via outra coisa.
A bengala não era apenas um pedaço de madeira. Era mais um ponto de apoio, uma pequena ampliação do território onde aquele homem podia continuar seguro. Os pés corrigiam discretamente a posição. Os tornozelos faziam pequenos ajustes. A musculatura das pernas trabalhava em silêncio. Nada chamava atenção. Era justamente essa discrição que tornava tudo tão extraordinário.
Pouco depois, uma senhora apareceu carregando uma pequena sacola. Os dois sorriram. Ele deu um passo em sua direção, depois outro, e seguiram caminhando lentamente pela calçada. Não havia pressa. Há uma idade em que as pessoas descobrem que caminhar juntas vale muito mais do que chegar depressa.
Continuei olhando até que desaparecessem entre as árvores.
Aquele senhor jamais saberá que, numa manhã comum de Petrópolis, me ofereceu uma das mais belas lições que já recebi. Seu corpo realizava milhares de correções invisíveis para continuar de pé. A vida faz exatamente a mesma coisa conosco. Quase nunca somos derrubados por um único acontecimento. Vamos perdendo o equilíbrio nos pequenos descuidos que deixamos de corrigir.
O corpo sabe disso desde o primeiro passo
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