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sábado, 08 de novembro de 2025


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O mundo como imagem inventada

- Mario Donato D’Angelo

“Não existe experiência objetiva.”

A frase é de Gregory Bateson, antropólogo, biólogo, comunicólogo e pensador sistêmico, cuja obra atravessou fronteiras entre ciência, filosofia e poesia da vida. Curta, incisiva, quase desarmante, ela abre uma brecha no chão onde pisamos. Se toda experiência é subjetiva, então de que matéria é feita essa realidade que juramos ver, sentir e tocar?

Pensemos na dor, por exemplo. Estamos acostumados a tomá-la como a mais absoluta das evidências. Mas até a dor tem bordas, início e fim, intensidade variável e localização precisa. O cérebro não a recebe como um dado cru: molda-a em uma imagem, com contorno, fundo e figura. O que sentimos não é o impacto bruto de um pé esmagando o nosso, mas a história que o corpo reconstrói instantes depois. Sinais elétricos percorrem os nervos, ascendem pela medula, acendem regiões cerebrais, córtex somatossensorial, ínsula, cíngulo anterior, e só então se transformam em experiência consciente. A neurociência moderna confirma a intuição de Bateson: não sentimos o acontecimento em si, mas sim a versão interpretada que o cérebro produz. A dor não é um sinal, é uma construção.

Tudo o que chamamos de mundo nos chega assim: mediado, traduzido, filtrado. Não vivemos o acontecimento em estado bruto, mas sim sua narrativa interna. Os fenomenólogos, Husserl, Merleau-Ponty, já haviam advertido que a consciência não recebe o mundo como espelho; ela o constitui em ato. A física quântica, por outro lado, também coloca o observador na cena: não há medição sem perturbação, não há realidade sem perspectiva. O objeto “em si” dissolve-se, e o que resta são aparições subjetivas.

O mais intrigante é que nossa civilização inteira se construiu sobre a crença contrária. Fundamos tribunais, ciências, religiões e até amores com base na convicção de que vemos “o mundo como ele é”. Confiamos nos sentidos como árbitros da verdade. Criamos a ficção da objetividade, e foi por força dela que erguemos cidades, partilhamos experiências, inventamos linguagens e conseguimos, de algum modo, habitar o mesmo palco. Cada um assiste a uma peça distinta, mas sustentamos a ilusão de que se trata da mesma representação.

O que, para mim, é claridade pode ser penumbra para você. O que para mim é dor lancinante pode ser apenas um incômodo leve para outro. O que, para mim, soa como música pode soar como ruído para você. Cada qual fabrica um universo à sua medida. E, no entanto, continuamos acreditando que falamos das mesmas coisas. A vida social é esse grande exercício de tradução: eu lhe conto minha percepção, você me devolve a sua, e, nesse vaivém, sustentamos o frágil pacto chamado realidade.

Alguns veem nisso um motivo de desespero: se não existe experiência objetiva, tudo se dissolve, nada é sólido, tudo é relativo. Prefiro ver riqueza. Se cada olhar é criação, então cada pessoa acrescenta um fio novo à tapeçaria do mundo. A verdade deixa de ser um bloco imóvel e passa a ser tecido em movimento. É como um bordado coletivo, sempre inacabado, sempre em disputa, mas justamente por isso vivo. O comum não está no objeto bruto, inexistente, mas no espaço de interseção em que nossas versões se encontram.

A cultura pode ser entendida como a grande oficina onde essa interseção ocorre. A literatura nos apresenta mundos possíveis que não são menos reais do que o jornal da esquina; a música permite que duas subjetividades distintas vibrem em uníssono; a arte abre janelas para experiências que nenhum laboratório captaria. Em cada gesto cultural, confirmamos a tese de Bateson: não há experiência objetiva, mas sim experiência compartilhada. E é desse compartilhamento que nasce a civilização.

Basta pensar na justiça. Nenhum tribunal julga “os fatos em si; julga as narrativas apresentadas, os testemunhos, as provas interpretadas. A ciência tampouco lida com a realidade nua: trabalha com modelos, hipóteses, medições, traduções do mundo. O amor, esse tribunal íntimo, também não se dá entre essências objetivas, mas entre representações, projeções, memórias. E, ainda assim, tudo isso funciona, move montanhas, produz beleza e destruição. O ilusório sustenta o real.

No fundo, Bateson tinha razão: não há experiência objetiva. Mas talvez não precisemos dela para viver. Talvez baste esse pacto implícito, essa ilusão partilhada que nos permite andar juntos, conversar, amar, escrever. O invisível, o afeto, a raiva, o desejo, a lembrança, é mais real do que qualquer pedra. O mundo é feito dessas forças que não se pesam em balança, mas pesam sobre nossas vidas.

Seguimos, então, cada um com sua imagem particular e todos, paradoxalmente, partilhando a mesma ficção. Uma ficção necessária, fértil, que nos lembra que a verdade não é um objeto imóvel no horizonte, mas um caminho de muitas vozes.

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