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O Orelha, as mulheres e as crianças

Ataualpa A. P. Filho  - professor

Foto: Pixabay
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Sei o quanto é importante manter o equilíbrio na composição de um texto. Mas reconheço a dificuldade para abordar determinados assuntos, porque sei que, dependendo do tema, o lado emotivo suplanta o racional. E assim, o texto tende a ficar sobrecarregado pela indignação ou pela evasão sentimental. Manter a imparcialidade ou ficar sobre o muro, são dois posicionamentos que considero quase impossível diante de assuntos que mexem com as nossas vísceras.

Para mim, a Literatura, além de ser uma arte, é um posicionamento social. Não a vejo como válvula de escape, mas como um espaço em que temos a oportunidade de estabelecer o exercício da cidadania, perante as contradições de uma sociedade marcada por injustiças. Por esse ângulo, fica exposta a necessidade do questionamento das ações de quem fere o código de conduta criado pela própria sociedade para nortear uma vida harmônica, digna e estável.

A “vida civilizada” exige a instituição de um Estado de Direito, em que as leis precisam ser obedecidas. Ninguém deve ser colocado acima delas. Todos devem ser tratados igualmente perante elas. E, por isso, é válido esclarecer que justiça não é vingança; humildade não é submissão; perdão não implica impunidade; segurança é dever do Estado; o amor nunca será justificativa para a prática da violência; a liberdade, ontologicamente, é direito dos viventes, por ser um bem inalienável e intransferível.

Não importa o “pedigree” dos agressores, a sociedade civil precisa de uma resposta das autoridades da cidade de Florianópolis em relação às agressões sofridas pelo cachorro comunitário Orelha, na madrugada do dia 04 de janeiro, na Praia Brava, que o levaram à morte. As leis existem também com essa finalidade: a instituição da justiça.

A repercussão do caso se deve à covardia das agressões. Contudo, sabe-se que ele não foi o primeiro animal a ser agredido e, lamentavelmente, não será o último. Mas é preciso que a lei seja imposta para, pelo menos, inibir tais crimes.

A impunidade consiste em elemento motivador de ações ilícitas. São muitos os animais que sofrem com os maus tratos. Há uma comercialização clandestina de animais silvestres que gera fortunas. A indignação coletiva se manifesta não somente em função das agressões, mas também para que esse fato não seja esquecido e não venha a ficar na impunidade. Repito: o desejo não é de vingança, mas de justiça. E esta deve ser exercida pelos órgãos responsáveis pela manutenção do Estado de Direito da Nação.

Um outro assunto que aflora a nossa indignação está relacionado ao feminicídio crescente no Brasil. Em 2025, foram registrados, pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, 1.518 casos. Superando assim o ano de 2024, no qual foram registrados 1.464 casos.

E, neste início de ano, as inaceitáveis cenas se repetem. Na quarta-feira passada (04/02), um adolescente de 17 anos atirou contra a ex-namorada, uma adolescente de 16 anos, que trabalhava em uma padaria em Ribeirão das Neves, Região Metropolitana de Belo Horizonte. Nesse mesmo local, ele atirou em outra adolescente de 14 anos, filha do dono da padaria, e em uma senhora de 56 anos, cliente do estabelecimento comercial. Em síntese, três mulheres assassinadas estupidamente. E mais uma vez a bandeira da justiça é erguida para dar um basta na covardia. Mais uma vez a opinião pública se levanta na exigência de medidas que possam conter a impunidade.

A nossa angústia aumenta, porque sabemos que muitos desses crimes poderiam ser evitados se as medidas protetivas fossem executadas como deveriam. Por isso que se aponta a omissão do Estado como fator que favorece ao aumento dessas ações criminosas.

Entre as vítimas das explícitas cenas de covardia, estão as crianças. Ainda esperamos notícias sobre o desparecimento de duas em Bacabal, Município do Maranhão. A dor no coração da mãe à espera dos filhos é imensurável. Sumiram em 04/01, até hoje não se tem notícia do que possa ter acontecido. É nesse vácuo que fica a insegurança de um povo que espera dos governantes, dos poderes constituídos, soluções para os problemas que o atormentam. A desesperança cresce quando se depara com o desaparelhamento do Estado pela corrupção.

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