- Mario Donato D’Angelo
Acordei esta manhã com a desagradável descoberta de que sou proprietário de um corpo sobre o qual exerço pouquíssima autoridade.
Durante a noite, enquanto dormia, milhares de operações foram realizadas sem meu conhecimento. O coração continuou trabalhando, os rins filtraram o sangue, o fígado cumpriu suas obrigações e milhões de células executaram tarefas que jamais me dei ao trabalho de compreender. Nenhuma delas pediu licença. Nenhuma apresentou relatório. E, ao que tudo indica, essa administração clandestina funciona muito melhor quando não interfiro.
Passei boa parte da vida estudando o corpo humano. Sou médico, estudei músculos, articulações, movimentos, forças e equilíbrios. Conheço razoavelmente bem a maquinaria. Mas quanto mais aprendi, mais me convenci de que o proprietário é a pessoa menos informada sobre o que acontece dentro da própria casa.
Veja o coração, por exemplo. Trabalha desde antes do nosso nascimento, sem férias, domingos ou feriados. Nunca pediu aumento, jamais apresentou atestado médico e não parece interessado em receber elogios. Basta que eu suba uma escada para que ele acelere o serviço, sem que eu precise telefonar dando instruções.
Os pulmões também não consultam minha agenda. Respiram enquanto converso, enquanto leio e até quando esqueço completamente que possuo pulmões. Se eu resolver supervisionar cada inspiração, provavelmente acabarei atrapalhando uma atividade que eles executam com admirável competência.
E há o fígado. Confesso que nunca tive com ele uma relação muito próxima. Sei onde mora, conheço suas atribuições e reconheço sua importância. Mas ignoramos mutuamente nossas atividades cotidianas. Ele não me conta o que faz com as substâncias que recebe, e eu raramente me lembro de agradecer.
O mais curioso, porém, é que essa organização não possui um diretor-geral no sentido habitual da palavra. O cérebro coordena inúmeras funções, mas também depende de mecanismos que não controla sozinho. Hormônios circulam, células trocam mensagens, bactérias participam de processos essenciais. Há decisões locais, sistemas de vigilância, mecanismos de compensação e uma quantidade extraordinária de conversas químicas das quais não ouvimos uma única palavra.
O sistema imunológico, por exemplo, mantém uma espécie de serviço permanente de segurança. Reconhece invasores, identifica alterações celulares, organiza respostas e conserva a memória de certos encontros desagradáveis. Tudo isso enquanto seu proprietário está preocupado com o preço do café ou procurando os óculos que deixou sobre a mesa.
Naturalmente, essa segurança também comete erros. Às vezes confunde um visitante inofensivo com um inimigo perigoso. Em outras ocasiões, volta suas armas contra os próprios moradores. Como em qualquer organização complexa, a eficiência não elimina a possibilidade de equívocos.
Durante muito tempo, a medicina procurou compreender essa imensa estrutura examinando seus departamentos. O cardiologista estudava o coração, o neurologista investigava o cérebro, o endocrinologista cuidava dos hormônios. A especialização trouxe conquistas extraordinárias. Mas a natureza não conhece as divisões administrativas que inventamos para estudá-la.
O corpo não funciona por especialidades.
Uma alteração intestinal pode influenciar o cérebro. Uma noite mal dormida modifica o metabolismo. Uma emoção acelera o coração, altera a respiração e modifica a tensão muscular. Aquilo que chamamos de organismo é, na realidade, uma conversa permanente entre partes que jamais trabalham inteiramente sozinhas.
E pensar que, durante séculos, acreditamos conhecer bastante dessa conversa.
A invenção do microscópio revelou um universo que ninguém imaginava existir. Depois vieram as células, os cromossomos, o DNA, as proteínas e os mecanismos moleculares. Cada descoberta abriu uma porta. Atrás dela, porém, não havia uma sala iluminada com todas as respostas. Havia um corredor com outras portas.
A ciência possui essa característica desconcertante: quanto mais ilumina, maior parece ficar a extensão daquilo que permanece na sombra.
Hoje conseguimos observar estruturas minúsculas, identificar alterações genéticas e acompanhar processos celulares que seriam inimagináveis para os médicos de poucas gerações atrás. Ainda assim, continuamos descobrindo relações inesperadas entre acontecimentos que julgávamos independentes.
E o proprietário permanece do lado de fora, admirado com as notícias que chegam de sua própria residência.
O envelhecimento acrescenta um detalhe interessante a essa convivência. Aos poucos, começamos a perceber a existência de funcionários que antes trabalhavam silenciosamente. Uma articulação reclama ao levantar da cadeira. Um músculo exige mais tempo para cumprir uma tarefa. O equilíbrio, que durante décadas funcionou sem qualquer cerimônia, passa a solicitar um pouco mais de atenção.
Não significa que a organização tenha deixado de funcionar. Significa que alguns de seus mecanismos já não dispõem da mesma margem de segurança.
É curioso que precisemos envelhecer para perceber atividades que nos acompanharam desde o nascimento.
Esta manhã, depois dessas considerações, levantei da cama, caminhei até a cozinha e preparei meu café.
Enquanto a água esquentava, meu coração ajustava a circulação, os músculos mantinham minha postura, os rins continuavam seu trabalho e incontáveis células executavam tarefas das quais eu não tinha a menor notícia.
Tomei o café tranquilamente.
Pela primeira vez, senti certa vontade de agradecer.
Mas não sabia exatamente a quem.
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