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sábado, 15 de novembro de 2025


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O tédio vestido com roupa de passeio

- Mário Donato D’Angelo

Arquivo Pessoal
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A nostalgia de um domingo em que até o tédio usava sapatos engraxados.

Domingo de manhã em Petrópolis já vinha com um peso no peito. Não era tristeza, era um tipo especial de tédio, um tédio elegante, que vinha bem-vestido.

Acordava-se mais tarde, ao som da casa se arrumando para a missa. A cama era feita com o lençol puxado até o travesseiro; a toalha da pia era trocada por uma de crochê; e o café vinha com pão amanhecido na chapa e cheiro de manteiga queimada.

Eu era menino e já sabia o ritual: banho de banheira, camisa branca, calça curta, cabelo penteado para o lado com um restinho de brilhantina do meu avô. A roupa de passeio era guardada só para domingos e feriados e, mesmo sendo desconfortável, dava certo orgulho usar. Sapato engraxado, meias que não ficavam no lugar e o andar meio duro de quem não podia sujar nada.

Naquela época, criança não tinha vontades nem desejos próprios, tinha que ser obediente, apenas isso. Ser criança era um estágio de passagem, um ensaio civilizatório rumo à condição de adulto. Tanto que o magazine mais famoso do Rio, especializado em roupas infantis, chamava-se O Príncipe. O slogan era uma pérola de coerência: “O Príncipe veste hoje o homem de amanhã.”

Repare: nem o nome da criança era mencionado. Ela não existia ainda, apenas prometia existir.

Íamos à missa com passos medidos. A cidade estava em silêncio, como se aguardasse algo. As vitrines fechadas refletiam nossas figuras bem-vestidas, e os sinos da igreja, pontuais como um relógio suíço, marcavam o compasso da procissão informal que se formava pelas calçadas.

Depois da missa, voltávamos para casa. E era aí que o domingo começava de verdade, ou melhor, começava a não acontecer.

Era como se a cidade tivesse vestido a roupa de passeio, mas sem ter para onde ir.

O almoço ainda demoraria. Os adultos conversavam baixo na varanda. As crianças eram orientadas a “ficar quietas”, como se o silêncio também fosse parte do cardápio. O relógio da sala fazia mais barulho do que o mundo inteiro. E eu andava pelos cômodos com as mãos atrás das costas, como um pequeno velho sem assunto.

Havia quem sugerisse um passeio até a praça. E lá íamos nós: sapatos apertando os calcanhares, paletozinho  apertando os ombros e a esperança de que alguma coisa interessante acontecesse.

Não acontecia...

A praça estava vazia. Uns poucos senhores liam o jornal dobrado em quatro. Os pombos dormiam sobre a estátua. E o vento assobiava entre as folhas, como se também estivesse entediado.

O tédio, naquele tempo, tinha modos. Ele se sentava com a perna cruzada, coçava o queixo com a mão, suspirava com elegância. Não era um tédio ansioso, desses que querem ir embora logo. Era um tédio que sabia ficar.

E a roupa de passeio não ajudava. Dava coceira no pescoço, esquentava as costas e tornava qualquer brincadeira impossível. Não se podia correr, nem sentar no chão, nem sujar o joelho. Era uma roupa feita para ser vista, mas ninguém nos via.

O tempo, por outro lado, nos via com atenção. Passava devagar, como um fiscal severo. O ponteiro dos minutos arrastava o domingo até o limite da paciência. O almoço finalmente vinha, mas depois dele tudo voltava ao mesmo ritmo: cochilos demorados, jornais sobre a barriga e a ordem tácita de não fazer barulho.

E eu, naquela roupa de passeio que não passeava, pensava se era sempre assim. Se os adultos também sentiam aquele vácuo no peito. Se aquele era o preço da elegância: parecer importante por fora e vazio por dentro.

Hoje, olho com carinho para aquele menino imóvel na praça, vestido para uma ocasião que não veio.

Aquela roupa desconfortável, a pasta no cabelo, tudo aquilo fazia parte de um aprendizado: o de esperar; o de sentir o tempo passar por dentro da gente; o de viver sem distrações, mesmo que não houvesse encantamento.

Mas, talvez, era também o aprendizado de ouvir o próprio silêncio, de perceber o pequeno rumor das horas dentro do peito, essa respiração compassada que o tédio nos ensina, quando o mundo lá fora adormece. Paulo Mendes Campos dizia que o tédio é a forma mais discreta de saudade, e talvez fosse isso: uma saudade do que ainda não aconteceu.

Porque há beleza também no tédio, desde que ele venha bem-arrumado, e, de preferência, engraxado, penteado e cheirando a brilhantina, pronto para desfilar com distinção pela avenida da paciência.

Um tédio que, se bem observado, ensina mais do que qualquer entusiasmo: ensina a delicadeza de estar só, o gosto leve do nada e a arte, tão rara hoje, de simplesmente não fazer coisa alguma.

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