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domingo, 11 de outubro de 2026


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O tempo não assina

- Mario Donato D’Angelo

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Há dias em que desconfio da perfeição. Ela é lisa demais, polida demais, brilha como uma vitrine onde ninguém mora.

Passei outro dia diante de um velho portão de ferro. A ferrugem havia desenhado sobre ele um mapa de ocres, vermelhos e laranjas que nenhum pintor conseguiria repetir. Havia continentes, ilhas, rios interrompidos e pequenas fronteiras abertas pela chuva. O tempo, esse artista que nunca assina as próprias obras, trabalhara ali durante décadas. Camada sobre camada. Sol depois de chuva, verão depois de inverno.

Alguém chamaria aquilo de deterioração.

Eu vi uma pintura.

Dias depois, passei novamente pelo mesmo lugar. Um homem lixava o portão. A máquina avançava sobre o ferro e fazia desaparecer, em poucos segundos, o que levara anos para ser criado. Os continentes sumiam, as ilhas eram varridas para a calçada e os rios se desfaziam numa poeira avermelhada. Na semana seguinte, o portão estava coberto por uma tinta preta, lisa e brilhante.

Ficara perfeito.

Não havia nada de errado nele. Também não havia mais nada para olhar.

Tenho a mesma impressão diante de certas paredes descascadas. A tinta se desprende e revela cores esquecidas, vestígios de reformas, restos de famílias que passaram por ali. Um verde antigo aparece sob o azul. Debaixo do verde, um amarelo pálido. A parede deixa de esconder a própria história e mostra, sem constrangimento, todas as casas que já foi.

Nós, porém, preferimos o reboco novo.

Temos uma estranha mania de confundir novidade com beleza. Lixamos a madeira até apagar seus veios, restauramos móveis antigos para que pareçam recém-saídos da fábrica e trocamos objetos porque ganharam riscos. Como se o risco fosse um defeito, não uma lembrança.

Até o lixo às vezes desmente essa ideia. Uma caçamba de entulho ao fim da tarde pode guardar uma composição que muitos museus exibiriam sem constrangimento: um resto de azulejo azul, a madeira de uma porta, um pedaço de cobre oxidado, tijolos partidos, um tecido desbotado preso a uma ponta de vidro. Separados, são sobras. Reunidos pela desordem, tornam-se outra coisa.

A beleza tem o hábito de morar onde ninguém a procura.

Ela está no banco de praça gasto por pessoas que já não sabemos quem foram, na mala antiga que conserva etiquetas de viagens esquecidas, no livro cheio de anotações feitas por uma mão desconhecida. Está na fotografia amarelada em que todos permanecem jovens, embora ninguém mais seja. Na fruta madura demais, no casaco herdado, na calçada rachada por onde uma pequena planta decidiu passar.

Um sapato sem marcas nunca caminhou. Uma mesa sem riscos jamais reuniu uma família. Uma casa onde tudo permanece intacto parece aguardar moradores que não chegaram.

As pessoas também passam boa parte da vida apagando seus vestígios. Pintamos o que envelheceu, escondemos o que mudou, disfarçamos as marcas como se o tempo tivesse cometido alguma indiscrição. Queremos conservar o rosto, o corpo, a casa e os objetos no instante impossível em que ainda não tinham sido vividos.

Mas não conheço nada verdadeiramente belo que tenha permanecido intacto. As árvores mais impressionantes têm galhos tortos. As cidades que amamos carregam rachaduras. As amizades mais longas sobreviveram a silêncios e mal-entendidos. Os grandes amores também guardam seus remendos, embora as visitas não os percebam.

A perfeição não conta histórias. A imperfeição conversa.

Naquela noite, ao guardar a louça, encontrei uma xícara lascada na borda. Durante alguns segundos, pensei em jogá-la fora. Depois me lembrei do portão preto, liso e brilhante.

Coloquei a xícara de volta no armário.

Na manhã seguinte, bebi café nela.

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