- Ataualpa A. P. Filho
Foi “Travessia” que me levou a conhecer o “Clube da Esquina”. Foi “Lumiar” que me levou a Lumiar. Foi “Grande Sertão: Veredas” que me levou a Andrequicé para conhecer Manuelzão. Já viajei por artes. Segui por trilhas que me levaram a sair de mim. Pé na estrada e uma mala na cabeça. Antes de amar as criaturas, acho que amei as criações.
Quando ouvi “Travessia” na voz de Milton Nascimento, foi um encanto: primeiro fiquei fascinado pelo timbre da voz dele. Para mim, havia uma personalidade sonora assim como havia na voz de Luiz Gonzaga, que carregava a identidade nordestina.
Eu não conhecia a mineiridade. Quis conhecer Minas antes de ir a Minas. O mesmo fascínio ocorreu quando ouvi “Fascinação” na voz de Elis Regina, e “Carcará”, na voz de Maria Betânia. Eu estava nos primeiros passos da adolescência. Nada entendia, apenas identificava algo que estava fora do comum. Algo além dos mesmos que se repetiam na obsessão para alcançar o topo das “paradas de sucesso”.
Não sei descrever o que me atraía. Mas posso afirmar que conseguia enxergar o talento presente na melodia e na composição das letras das canções. Quando ouvi “Viagem”, pela primeira vez, disse: “quando crescer, quero escrever assim, com poesia pura...”
O tempo passou, mas o sonho não envelheceu. Ainda espero escrever um poema assim como “Viagem”, de Paulo Cesar Pinheiro. Não lembro o nome da dona da voz que colocou “Viagem” nos meus ouvidos com a bela melodia de João de Aquino. Só sei que foi uma voz feminina, suave, encantadora. Desconfio que tenha sido Marisa Gata Mansa que me ninou:
“Oh! Tristeza me desculpe/ Estou de malas prontas/ Hoje a poesia/ Veio ao meu encontro/ Já raiou o dia/ Vamos viajar/ Vamos indo de carona/ Na garupa leve/ Do vento macio/ Que vem caminhando/ Desde muito longe/ Lá do fim do mar/ Vamos visitar a estrela/ Da manhã raiada/ Que pensei perdida/ Pela madrugada/ Mas que vai escondida/ Querendo brincar/ Senta nessa nuvem clara/ Minha poesia/ Anda se prepara/ Traz uma cantiga/ Vamos espalhando/ Música no ar...”
A Literatura de Cordel já estava pendurada no meu cordão umbilical, por isso a Poesia afinava o meu faro, embora não tivesse nenhuma formação técnica. Era o gosto pela tradução da vida...
Quando, no domingo (02/11), li a notícia da morte do cantor e compositor Lô Borges, fiquei alguns minutos em silêncio. Ainda estava sob o impacto do sangue derramado na Serra da Misericórdia. Os sins e os nãos podem definir a rota de uma vida...
Viajei em busca de lembranças: como encontrar notícias dos amigos que não sei por onde andam, mas que foram companheiros de estrada? Veio uma avalanche de saudade...
Quem andou pelos bares da vida na boca da noite e não ouviu uma canção dos amigos do Clube da Esquina?
Quem já sentou em torno de um violão e não cantou uma música desses mineiros que marcaram a Música Popular Brasileira?
Na década de 70, fui a Lumiar para entender melhor os versos da canção de Beto Guedes. Tenho um intenso desejo de entender a técnica de colocar, em versos, a simplicidade que emana Poesia. Na época, era um lugar ideal para reunir amigos, livros, discos e ouvir “rocks rurais”:
“Amor, Lumiar/ Pra viver, pra gostar/ Pra chover, pra tratar de vadiar/ Descansar os olhos, olhar e ver e respirar/ Só pra não ver o tempo passar/ Pra passar o tempo até chover, até lembrar/ De como deve ser Lumiar.”
Beto Guedes fez essa canção em parceira com Ronaldo Bastos, que também foi parceiro de Nilton Nascimento, na canção “Nada será como antes”. Na qual encontramos os seguintes versos:
“Eu já estou com o pé nessa estrada/ Qualquer dia a gente se vê/ Sei que nada será como antes, amanhã/ Que notícias me dão dos amigos?/ Que notícias me dão de você?/ Alvoroço em meu coração/ Amanhã ou depois de amanhã/ Resistindo na boca da noite um gosto de Sol.”
Sempre existe um “você” oculto pelo qual oscila o coração. A saudade vem assim com sabor de felicidade já vivida. Um “papo cabeça” em feira hippie, em momento “bicho grilo”. “Paz e amor”. Dedos em V (“Peace & love”). Também gritei “viva a liberdade”, com a imprudência estudantil, em um período em que sonhar era risco de vida.
Já tive cabelos longos. Mas, não uso mais. Eu os perdi aos 18 anos. Mas continuei admirando “os Beatles e os Rolling Stones”. Confesso que nem eu mesmo me entendia. Sentia-me também como “um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior”, como cantava Belchior. Estava em uma cidade grande, querendo desentortar, desentoar o destino, apenas com a força de vontade. De Teresina ao Rio de Janeiro, foi uma travessia...
Atahaulpa Yupanqui e Mercedes Sosa me pareciam mais próximos da minha realidade latina, por isso compreendia melhor os versos da Canção “Los Hermanos”. Entender “Canção da América”, outra música de Milton Nascimento e Fernando Brant, passa pela consciência do pertencimento do solo que nos viu nascer. É preciso ouvir a voz do coração para não deixar o sonho envelhecer.
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