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Paralisação da Turp deixa 30 mil passageiros por dia sem transporte

Impasse revela fragilidades do transporte público em Petrópolis

Foto: Emanuelle Loli
Foto: Emanuelle Loli

Demétrio do Carmo - Diário de Petrópolis

A paralisação dos rodoviários da Turp Transportes, iniciada na manhã de quarta-feira (22) e que surpreendeu usuários, chegou ao terceiro dia nessa sexta-feira (24), marcada por tensão e tumultos no Terminal de Corrêas. O cenário incluiu discussões, agressões verbais, brigas e atos de vandalismo, culminando na condução de um trabalhador à 105ª DP. A empresa é responsável por transportar cerca de 30 mil passageiros por dia, distribuídos em 93 linhas, a maioria nos distritos.

Na noite de quinta-feira (23), o Setranspetro informou ter regularizado pagamentos referentes ao vale-alimentação e ao adiantamento salarial. Ainda assim, a categoria manteve a greve e apontou uma série de pendências trabalhistas. Entre as principais reivindicações estão o pagamento regular do FGTS e das férias, quitação de pensões alimentícias, salários nas datas previstas (dias 5 e 20), entrega de cesta básica no dia 15, pagamento de rescisões contratuais e a criação de uma gratificação para profissionais que acumulam as funções de motorista e cobrador. Apesar de novas rodadas de negociação realizadas na manhã dessa sexta, não houve acordo.

Também nessa sexta-feira, o prefeito Hingo Hammes se manifestou pelas redes sociais, afirmando que equipes do governo, inclusive do setor jurídico, participam das tratativas. Ele destacou que a retomada do serviço depende de medidas por parte da empresa concessionária.

A paralisação atual se soma a um histórico recente de conflitos entre trabalhadores e a Turp. Somente em 2025, foram registradas quatro interrupções do serviço - uma em junho, duas em julho e outra em setembro. Já no início de abril o sindicato chegou a decretar estado de greve, posteriormente suspenso após o pagamento de valores em atraso.

No fim da tarde dessa sexta-feira, a Turp Transporte convocou, de forma emergencial, uma reunião com o Sindicato dos Rodoviários, CPTrans e representantes do movimento de paralisação, para resolver qualquer impasse e promover a retomada imediata da operação dos ônibus.

Crise recorrente no sistema

A Turp Transportes acumula críticas e problemas operacionais. A linha 700, que faz a única ligação direta entre o Centro e Itaipava é frequentemente alvo de reclamações por atrasos e superlotações.  A empresa ainda assumiu parte do sistema após a saída das viações Petro Ita e Cascatinha, passando a atender regiões como Estrada da Saudade, Quitandinha e Valparaíso.

Desde então, episódios de irregularidades têm sido recorrentes. Entre 2025 e 2026, foram registrados cinco acidentes - todos sem vítimas - além de falhas administrativas, como documentação em atraso e inadimplência com prestadores de serviço, o que levou à apreensão de três vans em fevereiro deste ano. Apesar do cenário, a empresa obteve na Justiça, em novembro, autorização para manter a tarifa de R$ 5,90, vigente desde agosto de 2025.

Dados do Relatório de Mobilidade Operacional (RMO), da CPTrans, mostram que somente nos dois primeiros meses deste ano foram aplicadas 572 multas à concessionária. A maioria das autuações está relacionada à má conservação dos veículos e a não realização de viagens sem justificativa.

Usuários

Na base da pirâmide do sistema estão os usuários. Nas redes sociais é grande o apoio aos trabalhadores e a revolta com a situação. Dentre os questionamentos principais estão a falta de licitação por parte da prefeitura para suprir a demanda e a exclusividade da Turp nas linhas que ligam o Centro aos distritos. “Há anos que pedimos uma linha Centro x Itaipava - via Terminal Itamarati - o que daria mais opções aos passageiros, ainda mais em momentos como este, mas nunca somos ouvidos”, reclamou uma moradora de Itaipava.

Impactos no comércio

A interrupção do transporte coletivo tem reflexos diretos na economia de Petrópolis. Em nota, a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) manifestou preocupação com os prejuízos causados pela instabilidade no sistema. Segundo a entidade, a dificuldade de deslocamento afeta tanto trabalhadores quanto empresários, resultando em equipes reduzidas, queda no atendimento e diminuição no fluxo de clientes.

A CDL também destacou a importância dos rodoviários para o funcionamento da economia local e da mobilidade urbana, classificando a categoria como um elo essencial para a dinâmica produtiva da cidade.

O Sicomércio também se manifestou dizendo que “a paralisação do atendimento feita pelos ônibus da Turp causa grande preocupação aos setores econômicos de Petrópolis, principalmente o comércio. O Sicomércio Petrópolis alerta para os problemas que estão sendo enfrentados pelos trabalhadores para conseguir chegar aos seus postos. A falta de transporte também reflete nas vendas. O Sicomércio Petrópolis, em nome de seu presidente, Marcelo Fiorini e de toda a sua diretoria, solicita ao poder público e entidades de classe, máxima urgência na resolução do conflito para o retorno da normalidade no atendimento”, disse em nota.

Desdobramentos

A 4ª Vara Cível de Petrópolis tem promovido audiências para discutir falhas mecânicas e a qualidade dos serviços prestados, com foco na atuação da Turp. Decisões recentes do juiz Jorge Luiz Martins Alves condicionaram eventuais reajustes tarifários à apresentação de relatórios que comprovem melhorias no sistema e segurança aos usuários.

Uma nova audiência está marcada para a próxima segunda-feira (27), às 16h30, quando representantes das partes envolvidas devem voltar a discutir soluções para o transporte público no município.

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