Dados foram divulgados pelo MapBiomas nessa quarta-feira (4)
Larissa Martins
Petrópolis está entre os seis municípios brasileiros com maior área urbanizada suscetível a deslizamentos. Na Região Serrana, Nova Friburgo e Teresópolis também estão classificadas na mesma situação. Os dados divulgados nesta quarta-feira (4) são do MapBiomas, uma rede multi-institucional que produz mapas anuais de uso e cobertura da terra do Brasil, com dados abertos e gratuitos.
O Estado do Rio de Janeiro apresentou a maior área urbanizada em favelas localizadas em zonas com risco muito alto de deslizamentos, com 781 hectares.
“Os indicadores representam a suscetibilidade das áreas urbanizadas a inundações e deslizamentos, mas não a ocorrência efetiva destes desastres. Ao mostrar a expansão urbana nestes locais mais suscetíveis, eles podem orientar ações de prevenção e apoiar a tomada de decisão quando os eventos acontecem. Assim os dados também permitem acompanhar o ritmo de ocupação, olhando para o passado e o futuro” explica Marcos Rosa, coordenador técnico do MapBiomas.
O levantamento faz parte da Coleção 11 do MapBiomas, que mostra que a área urbanizada em favelas e comunidades urbanas no Brasil passou de 60,2 mil hectares em 1985 para 151,7 mil hectares em 2025. Os indicadores representam a suscetibilidade das áreas, e não a ocorrência de deslizamentos.
Nesse período, 77,6% das favelas perderam pelo menos 10% de sua vegetação. A área urbanizada brasileira também mais que dobrou em quatro décadas, passando de 1,9 milhão para 4,4 milhões de hectares.
A área urbanizada em favelas e comunidades urbanas no Brasil passou de 60,2 mil hectares em 1985 para 151,7 mil hectares em 2025. Nesse período, a disponibilidade de vegetação intraurbana, ou seja, quanto de vegetação existe para cada hectare urbanizado, diminuiu. Fora das favelas, a área de vegetação intraurbana subiu cerca de 10% (de 0,042 para 0,046 hectares). Dentro das favelas, caiu cerca de 34% (de 0,060 para 0,040 hectare). Os dados são da Coleção 11 de mapas anuais de cobertura e uso da terra no Brasil do MapBiomas, que também revela que a área urbanizada brasileira mais que dobrou em quatro décadas, passando de 1,9 milhão para 4,4 milhões de hectares.
As favelas estão distribuídas por 651 municípios brasileiros. Da área urbanizada em favelas existente em 2025, 60,3% surgiu após 1985. Das 12,3 mil favelas, 9.895 apresentavam área urbanizada em 1985; dessas, 42,4% pelo menos dobraram de tamanho até 2025. A participação das favelas na área urbanizada total do país passou de 3,2% em 1985 para 3,4% em 2025. Em 19 das 27 unidades da Federação, essa proporção aumentou.
A expansão das favelas apresenta características diferentes da urbanização brasileira em geral. Enquanto a pastagem foi a principal origem da expansão urbana do país (38% da área que se urbanizou no período), nas favelas predominou a conversão de áreas naturais, com 54%. No entanto, a área total de vegetação natural convertida em área urbanizada fora de favelas foi maior: 866.840 hectares vieram de áreas naturais na urbanização geral e 49.517 hectares no caso das favelas. As áreas fora de favela, em termos brutos, desmataram 17,5 vezes mais.
A região Norte reúne 27,9% de toda a área urbanizada em favelas do Brasil, embora concentre apenas 9,4% da área urbanizada do país. Manaus lidera o ranking nacional de área urbanizada em favelas, com 10,5 mil hectares distribuídos em 235 comunidades. São Paulo, por sua vez, tem quase seis vezes mais favelas, 1.359, mas a área urbanizada por elas é menor, somando 6 mil hectares.
“Seis em cada dez hectares de favela que existem hoje surgiram depois de 1985, e esse território segue crescendo. Em 1985, as favelas tinham mais verde por hectare urbanizado do que o resto da cidade e hoje têm menos, porque o verde intraurbano encolheu cerca de um terço nelas e cresceu fora delas. Ao mesmo tempo, é nelas que a suscetibilidade a eventos climáticos adversos aumenta mais. Para adaptar as cidades às mudanças climáticas, precisamos olhar para onde o verde se perdeu e onde os territórios ficam mais expostos, e esse mapa precisa incluir as favelas”, explica Julio Cesar Pedrassoli, coordenador do tema Urbano no MapBiomas.
Vegetação nas favelas
Em 1985, as favelas tinham 43% mais vegetação intraurbana, aquela localizada dentro das áreas urbanizadas, do que as demais áreas urbanas do país. Quarenta anos depois, essa relação se inverteu: em 2025, a disponibilidade de vegetação intraurbana nas favelas era 15% menor do que nas demais áreas urbanizadas.
Entre 1985 e 2025, a área urbanizada sem vegetação aumentou 2,6 vezes nas favelas, enquanto a vegetação intraurbana cresceu 1,7 vez. Fora delas, a área sem vegetação cresceu 2,3 vezes, e a vegetação intraurbana, 2,6 vezes. A perda de vegetação intraurbana também foi proporcionalmente maior nas favelas: considerando a comparação por município, em 13,3% dos municípios com favelas, a área de favelas perdeu pelo menos 10% da vegetação intraurbana existente em 1985; fora das favelas, isso ocorreu em 8,1% dos municípios.
Área urbanizada cresce e vegetação urbana diminui
A área urbanizada brasileira cresceu 2,5 milhões de hectares entre 1985 e 2025 e passou a ocupar 0,5% do território nacional, diante de 0,2% no início da série histórica. Em 83,3% dos municípios, a área urbanizada pelo menos dobrou nesse intervalo. A Caatinga apresentou o maior crescimento proporcional entre os biomas, com 63,9% de sua área urbanizada atual formada após 1985. A Mata Atlântica continua concentrando a maior parcela da área urbanizada brasileira, com 46,9% do total.
Enquanto isso, a vegetação urbana total, que reúne a vegetação intraurbana e a periurbana (localizada nos limites do perímetro urbano definido pelo IBGE, fora da mancha urbanizada), diminuiu de 6,5 milhões para 4,1 milhões de hectares, uma redução de 35,9%. A vegetação intraurbana aumentou de 78 mil para 196 mil hectares, mas a periurbana recuou de 6,39 milhões para 3,95 milhões de hectares.
Em 2025, pela primeira vez na série histórica, a área urbanizada sem vegetação superou a vegetação urbana total, com 4,24 milhões de hectares, diante de 4,14 milhões. A disponibilidade geral de vegetação nas áreas urbanizadas caiu 72,4% entre 1985 e 2025. De toda a vegetação periurbana perdida no período, 84% dela virou área urbanizada e 5% virou vegetação intraurbana.
“Em 2025, pela primeira vez na série, a área urbanizada sem vegetação supera a área da vegetação urbana. Em 1985, a vegetação era 3,5 vezes maior que a área sem vegetação. É um marco que mostra o quanto o desenho das nossas cidades depende de quanto verde conseguimos preservar e, ao mesmo tempo, incorporar dentro da mancha urbana. Resiliência climática, soluções baseadas na natureza e qualidade de vida urbana passam por isso”, complementa Pedrassoli.
Ilhas de calor atingem, em média, 5 °C em áreas com pouca vegetação
Em setores censitários urbanos com até 10% de cobertura vegetal, a intensidade média das ilhas de calor chega a 5 °C no verão. A superfície das áreas urbanizadas do país apresenta temperatura média 2,73 °C superior à das áreas não urbanizadas do entorno durante essa estação. Em aproximadamente um quarto dos setores censitários urbanos, essa diferença supera 7 °C.
Quanto maior a cobertura vegetal, menor tende a ser a intensidade das ilhas de calor. Em setores com 80% de vegetação, a diferença média de temperatura cai para 1,1 °C. “Os dados se referem à temperatura da superfície, e não à temperatura do ar, e mostram que áreas com menos vegetação tendem a apresentar temperaturas mais elevadas. Essas informações podem ajudar a identificar regiões onde a arborização e a ampliação das áreas verdes são mais necessárias para reduzir o aquecimento urbano”, explica Clara Dias, da equipe do tema Urbano no MapBiomas.
Favelas em áreas suscetíveis a inundações e deslizamentos
Em outras regiões, a área urbanizada em favelas localizadas em zonas de suscetibilidade muito alta a inundações cresceu 117% entre 1985 e 2025; a média anual passou de 3.741 hectares em 19851989 para 8.111 hectares em 20202025. No caso dos deslizamentos, o crescimento foi de 12%, e a média anual chegou a 4.456 hectares em 20202025.
O Pará registrou em 2025 a maior área de favelas com suscetibilidade muito alta a inundações, com 2.059 hectares. Proporcionalmente, o Amapá lidera, com 92% das suas favelas nessa condição.
Luz artificial noturna cresce 37% em 12 anos
A área com luz artificial noturna detectável por satélite cresceu 37% entre 2013 e 2025, um acréscimo de 1,7 milhão de hectares, o equivalente a 11 vezes a área do município de São Paulo. No mesmo período, a área com luz cresceu 2,5 vezes mais que a área urbanizada. A categoria de intensidade muito alta foi a que mais cresceu, com aumento de 57%.
O Sudeste concentra 40% da área com luz artificial noturna mapeada no país, embora ocupe 11% do território. Enquanto a região Norte concentra 8%, ocupando 45% do território brasileiro. Minas Gerais e São Paulo responderam por 29% da expansão registrada entre 2013 e 2025, com 256 mil e 238 mil hectares, respectivamente. Mato Grosso teve o maior aumento relativo entre as unidades da Federação: 97%. Ainda assim, 99,3% do território brasileiro não tem luz artificial detectável por satélite.
“Vale ressaltar que a luz detectada não equivale a área urbana, renda ou qualidade da iluminação. Além de acompanhar a expansão urbana, esse mapeamento ajuda a indicar áreas prioritárias para investigar impactos sobre a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos, espécies migratórias e habitats fragmentados, além de mudanças na atividade humana em regiões remotas, inclusive possíveis usos ilegais do solo, que precisam ser verificados por outras fontes. Quando combinado a dados socioeconômicos, ambientais e de saúde, também pode apoiar o monitoramento do desenvolvimento social e identificar locais com iluminação potencialmente desperdiçada ou cuja exposição noturna mereça atenção”, explica Camila Teixeira, que coordenou o mapeamento da luz artificial noturna no MapBiomas.
*Com informações do MapBiomas
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