Rio Grande do Norte é escolhido para abrigar equipamento que será um dos maiores processadores do mundo
Larissa Martins e Demétrio do Carmo
Petrópolis perdeu a queda de braço para receber o novo supercomputador de inteligência artificial no Laboratório Nacional de Computação Científica - LNCC. Apesar da união de esforços, o destino do equipamento foi anunciado na quinta-feira (20), pelo Governo Federal: o Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo (PAX), em Macaíba, na Região Metropolitana de Natal. Outras cidades como Campinas e Rio de Janeiro também disputavam o supercomputador.
Mobilização
A escolha representa uma frustração para Petrópolis, especialmente diante da mobilização realizada desde o ano passado para que o equipamento fosse instalado no LNCC, responsável pelo supercomputador Santos Dumont, atualmente um dos mais potentes da América Latina.
No ano passado, a Prefeitura de Petrópolis, o Governo do Estado e a comunidade científica se uniram em defesa da instalação. Um manifesto foi entregue à ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos. Em fevereiro deste ano, durante visita à sede do LNCC, a ministra destacou o potencial de Petrópolis afirmando que poderia se tornar a "capital brasileira de IA. No entanto, a cidade apresentava alguns empecilhos. Um dos principais fatores apontados pelo próprio MCTI foi o alto custo da energia elétrica, estimado em de R$ 7 milhões mensais para manter a estrutura, o que daria para abastecer 43 mil residências”.
Marcelo Soares, Membro do Comitê Intersetorial de Desenvolvimento de Petrópolis, criado pela prefeitura para fortalecer o ambiente acadêmico e científico do município, lamentou que o município não tenha sido escolhido para sediar o equipamento.
“Essa é uma péssima notícia para Petrópolis. Certamente trará impactos negativos para a cidade e para o mercado de trabalho de tecnologia que já é dos mais importantes e promissores na cidade. Apesar dos esforços da sociedade produtiva e dos políticos da região para provar que Petrópolis era, claramente, a melhor opção, o governo federal não foi sensível aos nossos argumentos. Perde Petrópolis, perde o Brasil porque aqui o supercomputador poderia começar a produzir com menos custos e mais rápido com a estrutura do LNCC já em funcionamento e em especial com o corpo técnico de pesquisadores de nível internacional já em plena atividade. Pessoalmente vejo nesse evento um esvaziamento do LNCC e potencial risco de perdermos uma entidade dessa relevância para nosso parque tecnológico”, lamentou.
O Vereador Gil Magno, também Membro do Comitê Intersetorial de Desenvolvimento de Petrópolis, comentou sobre a situação. “Recebemos com respeito a decisão de instalação do novo supercomputador no Rio Grande do Norte. Naturalmente, desejávamos esse investimento em Petrópolis, que já abriga, no LNCC, o Santos Dumont, um dos mais importantes supercomputadores da América Latina. Nossa cidade possui uma sólida cadeia de conhecimento e tecnologia, reunindo instituições como LNCC, CEFET/RJ, Universidade Católica de Petrópolis (UCP), UNIFASE, FAETERJ e outras instituições de ensino, além do Serratec, empresas de tecnologia, pesquisadores, professores e profissionais altamente qualificados. Esse patrimônio precisa ser valorizado e fortalecido. Petrópolis tem história, conhecimento, formação profissional e vocação para a inovação. O processo continua, e seguiremos trabalhando para ampliar nossa infraestrutura tecnológica e atrair novos investimentos para a cidade”, destacou.
A Prefeitura foi procurada, mas não se posicionou a respeito do assunto até o fechamento desta edição.
Investimento bilionário
Com um investimento total projetado em R$ 1,06 bilhão, o maquinário será focado no processamento de dados de alto desempenho e no desenvolvimento da inteligência artificial (IA) em território. O montante será dividido em duas frentes: R$ 960 milhões destinados exclusivamente à compra do maquinário e R$ 100 milhões reservados para as etapas de preparação do espaço e operação do sistema.
A infraestrutura deverá alcançar 7.200 petaflops, cerca de 7,2 quintilhões de operações matemáticas por segundo. Petaflop é uma unidade usada para medir a capacidade de processamento de supercomputadores. Um petaflop corresponde a 1 quatrilhão de operações matemáticas por segundo. Para se ter uma ideia, o supercomputador Santos Dumont opera com 27 petaflops.
Mesmo que a cidade não tenha sido escolhida, o LNCC segue responsável pela execução do supercomputador de IA.
“O LNCC conduz os estudos e o desenvolvimento técnico para a implantação de um novo supercomputador de alto desempenho voltado à Inteligência Artificial (IA). A implantação da nova infraestrutura não altera a sede do LNCC, que permanece em Petrópolis, e representa uma expansão da infraestrutura nacional de computação de alto desempenho, e não uma transferência do Laboratório. O papel do LNCC é central na dimensão científica e tecnológica da iniciativa. As especificações técnicas do novo equipamento foram desenvolvidas pelo Laboratório, que também conduz os estudos relacionados à implantação da infraestrutura, considerando os requisitos necessários para a operação de um sistema de computação de alto desempenho dessa escala”, informou o LNCC ao Diário.
PBIA
As medidas anunciadas na quinta-feira (20) integram o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que prevê R$ 23 bilhões em investimentos entre 2024 e 2028. O país pretende chegar entre os dez maiores em processamento de IA.
O edital público de concorrência para a compra do supercomputador será publicado no Diário Oficial da União (DOU), segundo o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Os recursos são oriundos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT).
Justificativas
De acordo com as justificativas do governo federal, a escolha do Rio Grande do Norte baseou-se em três pilares centrais:
Matriz energética: O estado possui abundância de fontes de energia limpa e renovável, especialmente eólica e solar, fundamentais para sustentar o alto consumo elétrico;
Ciência e pesquisa: Há um forte potencial para integrar a máquina às universidades e centros de pesquisa nordestinos, impulsionando a formação de profissionais;
Economia: A estrutura funcionará como um ímã para atrair startups, empresas de tecnologia e pesquisadores para a região.
A proposta é ampliar a capacidade tecnológica instalada no país e criar condições para que empresas, startups, universidades, centros científicos e órgãos públicos desenvolvam e treinem modelos de IA sem depender exclusivamente de estruturas contratadas no exterior.
“Anunciei hoje a instalação de um supercomputador no Rio Grande do Norte, com investimento de R$ 1,06 bilhão. Mais do que tecnologia, é oportunidade para a juventude brasileira. Queremos que nossos jovens, pesquisadores e acadêmicos tenham as oportunidades que a nossa geração não teve e provem que o Brasil não deve nada a ninguém. Para ter soberania, precisamos de conhecimento, tecnologia e educação. O Brasil pode e deve pensar grande”, declarou o Presidente.
Chips de código aberto
Outra iniciativa é o desenvolvimento de chips com arquitetura aberta RISC-V, para reduzir a dependência de arquiteturas proprietárias. O esforço envolve uma parceria com cerca de 70 países e estimativa de 10 a 15 anos de desenvolvimento.
Segundo o MCTI, essa frente será conduzida pelo Instituto Eldorado, de Campinas (SP), em cooperação com o ecossistema de inovação de Barcelona, na Espanha, e busca ampliar o domínio brasileiro sobre tecnologias críticas para a computação de alto desempenho e a inteligência artificial.
Transferência tecnológica
Uma outra cooperação tecnológica também envolverá uma infraestrutura de supercomputação no Rio de Janeiro, por meio da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), em parceria com as chinesas Huawei e Iflytek.
A iniciativa pretende ampliar a capacidade de processamento com transferência de tecnologia, parcerias de pesquisa e desenvolvimento, formação de profissionais e desenvolvimento de uma pilha de software soberana.
Também está previsto o desenvolvimento de um modelo de linguagem de grande escala (LLM) nacional e de modelos de inteligência artificial em português, permitindo criar soluções mais adequadas ao idioma, aos dados e às necessidades brasileiras. Neste caso, o investimento público é estimado em R$ 1,276 bilhão ao longo de cinco anos e o início das operações está previsto para julho de 2027.
Em julho, o governo brasileiro assinou o documento de criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico), com sede em Xangai, na China. O objetivo da iniciativa é desenvolver uma governança global de IA por meio de modelos com código aberto, que permitem a apropriação da tecnologia por qualquer empresa ou organização.
Nuvem brasileira
O evento no RN também marcou a assinatura de um acordo de cooperação entre o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), o Serpro e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para estruturação de um projeto para criar uma alternativa brasileira para armazenamento e processamento de dados e sistemas. A ideia é reduzir a dependência de grandes provedores estrangeiros na guarda de dados computacionais.
Com informações da Agência Brasil
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