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Petrópolis registra 303 acidentes com animais peçonhentos em 2025

Incidência aumenta com o calor e chuvas; Brasil vive epidemia silenciosa, apontam especialistas

 Foto: Comunicação Butantan
Foto: Comunicação Butantan


Larissa Martins

Acidentes com cobras, aranhas, abelhas e outros animais peçonhentos acontecem o ano todo, mas podem aumentar até 80% com a chegada das altas temperaturas e o período chuvoso,  segundo o Instituto Butantan. Em Petrópolis, por exemplo, 303 casos foram registrados neste ano, de acordo com o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan). De 2015 até o momento, o município somou 2.056 ocorrências.

Crescimento nacional preocupa

A alta incidência de casos que envolvem picadas de escorpião tem chamado a atenção de especialistas médicos no Brasil. O Ministério da Saúde registrou mais de 126 mil casos neste ano, com 148 mortes confirmadas até setembro.

Esse crescimento não é considerado sazonal, mas sim uma tendência histórica. Um estudo recente publicado na revista Frontiers in Public Health alerta que os casos de picadas no país cresceram 150% em menos de uma década (entre 2014 e 2023). Este cenário de "epidemia silenciosa" é impulsionado por uma complexa interação de fatores ambientais, sociais e biológicos.

De acordo com o estudo, a urbanização desordenada e as mudanças climáticas desempenham um papel central no problema. Verões mais quentes e a alternância entre períodos de chuva intensa e seca facilitam a proliferação das populações de escorpiões, que são criaturas altamente adaptadas a ambientes quentes e úmidos.

O crescimento de cidades com infraestrutura e saneamento inadequados cria o habitat ideal para a proliferação, já que os escorpiões vivem na rede de esgoto e podem invadir residências facilmente pelos encanamentos. O acúmulo de lixo e entulhos em áreas urbanas oferece abrigo e recursos abundantes para esses animais.

Cuidados, sinais e sintomas

A especialista médica da Afya, Dayanna Palmer, ressalta que é fundamental redobrar os cuidados nesta época do ano, principalmente em áreas de maior risco, como terrenos baldios, pilhas de entulho e madeira acumulada, locais que favorecem a presença do escorpião.

“A atenção deve ser ainda maior com crianças e idosos, considerados mais vulneráveis aos efeitos do veneno. Em caso de picada de escorpião, a orientação é procurar imediatamente o serviço de saúde mais próximo, evitando medidas caseiras, já que o atendimento rápido faz toda a diferença,” continua Palmer. Segundo ela, as regiões mais vulneráveis às picadas são dedos, mãos e pés.

Muitas vezes, a vítima só percebe o ferimento minutos ou horas depois de ele acontecer, ao sentir coceira, vermelhidão, dor ou inchaço em algum ponto da pele. Quando não é possível ver o que a picou, o primeiro impulso é imaginar que foi um inseto qualquer e que não haverá maiores problemas. Mas o principal sinal de alerta para diferenciar uma picada comum da picada de um animal peçonhento, que representa perigo à saúde, é quando a lesão não melhora com tratamento sintomático, segundo a médica do Hospital Vital Brazil Roberta de Oliveira Piorelli.

“De modo geral, quando ocorre inchaço ou dor persistente que só progride, o ideal é buscar atendimento médico, especialmente se começar a ter sintomas sistêmicos, como mal-estar, náuseas, vômitos e manchas na pele”, explica. “Se o paciente não tem alergia conhecida e não costuma ter reações a picadas, e notou que a lesão está diferente do habitual, o quadro merece atenção.”

É importante que a vítima lave bem o local com água corrente e faça compressas frias com água ou gelo aliviam a dor na maioria dos casos. Assim como nos outros acidentes, não é recomendável colocar nenhum produto químico ou orgânico sobre a queimadura, como café, folhas, pasta de dente, gasolina, etc. No caso de picada por taturana (lagarta), ela pode ser levada à unidade hospitalar para identificação da espécie, visando distinguir a Lonomia das outras, visto que, neste caso, pode ser necessário o uso de soro para neutralizar o efeito do veneno.

Qual unidade procurar?

A referência para atendimento em Petrópolis é a Unidade de Pronto Atendimento de Cascatinha, na Rua Bernardo Proença, n° 500, no Itamarati.

Tratamento

O principal tratamento para a picada é o soro antiveneno produzidos pelo Instituto Butantan e distribuídos, exclusivamente, pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A cada ano, são encaminhados cerca de 450 mil frascos ao Ministério da Saúde, que repassa aos estados após avaliação epidemiológica. Os estados, por sua vez, transferem aos municípios para hospitais públicos, filantrópicos ou privados, desde que seja garantido o tratamento sem custo ao paciente.

O Butantan é o maior produtor de soros antiveneno do país. Ele produz 8 tipos de soros contra picadas de cobras, escorpiões e lagartas, além de soros para tratamento do botulismo, raiva, tétano e difteria, totalizando 12 tipos diferentes.

A linha de produção dos soros antiveneno do Instituto é certificada em Boas Práticas de Fabricação (BPF) pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). É o décimo maior fabricante mundial de vacinas em doses distribuídas e em valor, segundo a OMS, é o maior produtor da América Latina.

Prevenção

Algumas dicas práticas essências de prevenção, fornecidas pelo Butantan são:

Serpentes: Usar calçados fechado, de preferência de cano alto, ao andar ou trabalhar no mato.  Usar luvas grossas para manipular folhas secas, lixo, lenha, palhas, etc. Não colocar as mãos em buracos e tomar cuidado ao revirar cupinzeiros. Evitar acúmulo de lixo e entulho.

Aranhas, escorpiões e lacraias: Manter jardins e quintais limpos. Evitar folhagens densas junto a paredes e muros das casas e manter a grama aparada. Não colocar as mãos em buracos, sob pedras e em troncos podres. Usar calçados e luvas grossas nas atividades de jardinagem. Vedar ralos, frestas, buracos e soleiras de portas e janelas. Afastar as camas e berços das paredes, evitar que roupas de cama e mosquiteiros encostem no chão. Sacudir e verificar roupas e sapatos antes de usá-los. Preservar os predadores naturais: coruja, joão-bobo, lagartos, sapos, galinhas, gansos e quatis.

Taturana (lagarta): Tomar cuidado ao tocar em troncos de árvores e plantas no jardim.Verificar se existem folhas roídas nos galhos das árvores, casulos e fezes de lagarta no solo. Usar luvas de borracha ao manusear plantas.

Picadas em pets

Os pets também podem ser picados por um um animal peçonhento. De acordo com o veterinário Thiago Chiariello, coordenador de produção de venenos e antivenenos no Biotério de Artrópodes do Butantan, os tutores precisam ficar atentos aos sinais e sintomas apresentados pelo pet. “Ao notar algo errado, a primeira coisa a se fazer é sempre procurar atendimento veterinário e não tentar tratamentos caseiros, pois podem acabar piorando o quadro”, reforça.

O tipo de acidente mais comum nesses animais é com serpentes. Por serem mais robustas e terem presas grandes, elas conseguem ultrapassar os pelos e penetrar a pele com maior facilidade do que aranhas ou escorpiões. A sintomatologia é a mesma que a dos humanos, sendo o principal sinal dor intensa e imediata. A gravidade varia de acordo com a quantidade de veneno inoculada e com o tamanho do pet. Os de pequeno porte tendem a apresentar quadros mais severos.

Sintomas comuns

Entre os principais sintomas de envenenamento por serpente estão: dor, inchaço local, sangramento no ferimento e em mucosas, manchas arroxeadas, alterações neurológicas (como paralisia muscular, pálpebras caídas e dificuldade de locomoção) e dificuldade respiratória.

Tratamento

Geralmente, o tratamento é feito com medicamentos para combater os sintomas, mas existe um soro antiofídico veterinário que neutraliza os venenos da jararaca e da cascavel.

“Nem sempre há necessidade de aplicação do soro e não é recomendado que o tutor compre o produto e tente aplicá-lo por conta própria, pois há risco de reação que pode levar a choque anafilático. Somente o veterinário pode avaliar a necessidade ou não do soro e administrá-lo com os devidos cuidados”, afirma Thiago.

Vale ressaltar que os soros para humanos e para animais são distintos, com dosagens específicas, e ambos só podem ser aplicados em unidades de saúde com equipe qualificada e preparada para tratar possíveis reações adversas.

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