Plataforma reúne informações sobre a exposição a riscos ambientais e climáticos que afetam crianças e adolescentes
Larissa Martins
Anualmente, Petrópolis registra média de 33 episódios de chuvas intensas, 4 ondas de calor e 2 secas. Os eventos climáticos podem representar ameaças diretas à segurança das crianças e adolescentes, aponta Painel Crianças e Meio Ambiente lançado pelo Fundo das Nações para a Infância (UNICEF) e pela organização global de saúde pública, Vital Strategies, em julho.
No município, 22,45% da população é infanto-juvenil. A iniciativa reúne informações sobre a exposição a riscos ambientais e climáticos que afetam esse público. A ferramenta, voltada a auxiliar a gestão pública municipal, consolida 14 indicadores organizados em quatro áreas temáticas: ambiente escolar, eventos climáticos extremos, qualidade do ar e infraestrutura ambiental e urbana.
São apresentados dados individualizados dos municípios e os indicadores são classificados em três níveis de prioridade (alta, média e baixa), sinalizando onde são necessárias ações imediatas, onde se recomenda planejamento e adoção progressiva de medidas de melhoria, e onde basta manter o monitoramento contínuo das condições existentes.
De acordo com o levantamento, Petrópolis apresenta nível 2 de chuvas e secas, o que significa Nível de Atenção Médio, o qual recomenda-se planejamento e adoção progressiva de medidas de melhoria no curto a médio prazo.
Em nível ainda maior, chegando ao 3, estão os indicadores sobre presença de poluentes atmosféricos e fontes emissoras, diretamente relacionados ao bem-estar de crianças e adolescentes, especialmente em contextos urbanos e de queimadas.
Petrópolis tem o percentual de 93,4% de dias com poluição do ar acima do limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A poluição do ar associada ao transporte rodoviário ficou em 574.59 gramas, sendo classificada em nível 1, com baixa prioridade de intervenção imediata.
Outro indicador apresentado é o de densidade de focos de calor, alcançando 0.07 foco por quilômetro quadrado. No ambiente escolar, os indicadores relacionados às condições de infraestrutura das escolas, revela que 64,6% das crianças e adolescentes estudam em escolas sem áreas verdes.
Os dados completos de Petrópolis estão disponíveis no endereço: https://www.criancasemeioambiente.org.br/
Nova análise
Uma nova análise do UNICEF alerta que crianças e adolescentes podem sofrer uma parcela desproporcional dos impactos do El Niño 20262027. O UNICEF defende que governos aproveitem os próximos meses para preparar serviços essenciais antes que os riscos se agravem. Preparado pelo Centro de Excelência sobre Crianças e Resiliência Climática do UNICEF, sediado em Bangkok, na Tailândia, o documento detalha como secas, calor extremo, incêndios florestais, chuvas intensas e inundações podem afetar saúde, nutrição, acesso à água, educação e proteção das crianças.
No Brasil, o alerta ganha urgência diante das previsões mais recentes. Boletim divulgado em 1º de setembro por órgãos oficiais brasileiros (INMET, INPE, ANA, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil (SGB), Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (SEDEC) e Censipam) aponta mais de 90% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte no trimestre setembro-outubro-novembro. Para o período, há tendência de chuva abaixo da média em grande parte do Norte e Nordeste e acima da média especialmente no Sul, além de temperaturas acima da média em praticamente todo o País. Calor e estiagem também podem prolongar condições favoráveis às queimadas em áreas do Centro e do Norte. Atualização posterior do INMET, divulgada em 10 de setembro, reforçou a tendência de intensificação do fenômeno até o fim de 2026.
O fenômeno chega a um País onde mais de 30 milhões de crianças e adolescentes, seis em cada dez, já estão expostos a dois ou mais riscos climáticos. Desses, 16 milhões convivem com três ou mais riscos. E eventos recentes mostram como extremos podem interromper direitos: em 2024, as enchentes no Rio Grande do Sul afetaram a educação de 741 mil estudantes, enquanto a seca extrema na Amazônia atingiu outros 436 mil. No total, 1,17 milhão de crianças e adolescentes tiveram as aulas interrompidas.
Esses números não significam que os eventos de 2024 vão se repetir neste ciclo de El Niño nem permitem prever exatamente onde ocorrerão os maiores impactos. Eles mostram, porém, o que pode acontecer quando seca, calor, fumaça ou chuvas extremas atingem serviços dos quais o público infanto-juvenil dependem.
“O dado meteorológico nos mostra onde pode chover mais ou menos e onde o calor ou a seca podem se intensificar. O papel do UNICEF é olhar para o que acontece quando esse extremo chega à vida de uma criança. Uma seca pode significar falta de água segura, fumaça, dificuldade para chegar à escola ou ao posto de saúde. Uma enchente pode significar escola fechada, vacinação interrompida ou perda da renda da família. E muitos desses impactos podem ser reduzidos se a preparação acontecer antes da emergência”, afirma Danilo Moura, Especialista em Clima e Meio Ambiente do UNICEF no Brasil.
O El Niño não age sozinho e crianças sofrem mais
O El Niño é parte de um ciclo natural nas temperaturas do Oceano Pacífico equatorial, caracterizado por temperaturas mais altas do oceano que influenciam padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta. Com as mudanças climáticas e a degradação ambiental causadas pela ação humana, as consequências do El Niño têm se agravado a cada novo ciclo. Esses impactos estão relacionados com outros fenômenos meteorológicos, as condições ambientais, as vulnerabilidades existentes e a capacidade dos serviços públicos de se preparar e responder.
A análise do UNICEF destaca que o atual El Niño ocorre em um contexto de temperaturas excepcionalmente elevadas nos oceanos e continentes, condição que pode ampliar secas onde as chuvas falham e inundações onde a precipitação se concentra.
Para crianças, há uma vulnerabilidade adicional. Por estarem em desenvolvimento, são particularmente sensíveis ao calor extremo, à desidratação, à fumaça, à má nutrição e a doenças favorecidas por mudanças de temperatura e nos padrões de chuva. Ao mesmo tempo, dependem de adultos e de serviços públicos para ter acesso à água, alimentação, escola, saúde e proteção.
Por isso, o El Niño pode gerar uma cadeia de impactos que vai muito além das anomalias climáticas, e que podem chegar à infância e a adolescência por diferentes caminhos.
A janela para agir é agora
A análise do UNICEF diferencia as medidas necessárias para reduzir os impactos do El Niño 20262027 dos investimentos estruturais que podem deixar crianças e serviços essenciais mais protegidos diante de futuros eventos extremos. Uma das características do El Niño é que sua evolução pode ser acompanhada com meses de antecedência. Para o UNICEF, isso cria uma oportunidade que não existe em todas as emergências: agir antes que os maiores impactos ocorram.
No curto prazo, a preparação inclui fortalecer sistemas de alerta precoce; preparar profissionais e unidades de saúde; revisar planos de emergência das escolas; monitorar e proteger fontes de água; pré-posicionar medicamentos e insumos; identificar famílias e comunidades mais vulneráveis; e organizar mecanismos de proteção social e apoio financeiro antes de uma emergência.
Além de proteger vidas e direitos, agir antes pode tornar a resposta mais eficiente do que reconstruir depois. O Relatório Global de Avaliação sobre Redução do Risco de Desastres 2025, do Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres (UNDRR), citado na nota do UNICEF, estima que cada US$ 1 investido em redução de riscos e prevenção pode economizar até US$ 15 em recuperação pós-desastre. A evidência internacional mostra também que sistemas de alerta e ação antecipatória reduzem perdas e aceleram a recuperação.
“Esperar a escola fechar, o posto de saúde ficar isolado ou uma comunidade perder acesso à água para começar a agir é chegar tarde. Nós já sabemos que há um El Niño forte em curso e conhecemos os tipos de impacto que podem atingir diferentes regiões. Preparar os serviços agora custa menos, permite responder mais rápido e, principalmente, evita que a emergência climática se transforme em uma emergência para as crianças”, afirma Danilo.
*Com informações do UNICEF.
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