“Roubar a cena”. Essa é uma expressão muito comum no meio das artes cênicas. Nos circos, geralmente, são os palhaços que entram para descontrair a plateia, nos momentos tensos de suspenses acrobáticos. Promovem a alegria, despertando o riso. Guardo, na memória, com carinho, imagens de palhaços e mágicos que me fascinaram em matinês circenses, em Teresina. Aprendi a respeitar esses artistas quando passei a ter noção da luta pela sobrevivência. O suor que banha a arte tem que ser louvado.
No cinema, quando o ator coadjuvante brilha mais do que o protagonista, costuma-se dizer que ele “roubou a cena”. Nas igrejas, em celebrações religiosas, às vezes, a concentração dos fieis é desviada quando um cachorro entra e passa a ser o centro das atenções ao lado do celebrante.
No período da minha “santa inocência”, na década de 60, assistia, pela tv, ao seriado “Batman”, que tinha como parceiro o Robin, o “Menino Prodígio”. As cenas eram hilárias. Mas a minha admiração ficava voltada para a “bat-inteligência” e a “bat-discrição” do Alfred, o mordomo. Eu o considerava o mentor intelectual da “dupla dinâmica” no combate ao crime de Gotham City. Nenhuma casa da vila em que eu morava tinha mordomo, logo aquele personagem era inusitado para mim, fazia parte de uma realidade distante da minha. A elegância dele complementava a sutiliza do seu comportamento discreto.
Hoje, no cenário político do nosso País, há menos de um mês do primeiro turno do pleito eleitoral deste ano, que ocorrerá em 04 de outubro, no qual teremos a eleição de presidente, senadores e deputados; os debates, os questionamentos, os esclarecimentos sobre as plataformas defendidas pelos candidatos entraram em uma via secundária, porque o foco da atenção política ficou voltado para o conflito entre membros da corte suprema, algo sem precedente no período republicano.
Essa crise nos deixou estarrecidos, porque se instalou onde não deveria e tendo como protagonistas cidadãos que ocupam cargos que representam o Poder Judiciário da Nação. Em quem ama a justiça, em quem ama a Pátria, emergiu a vergonha vicária, ou seja, a vergonha alheia, pelo constrangimento de ver aflorada a vaidade no duelo de prepotências. Sem a devida “data vênia”, a arrogância vem sendo destilada egocentricamente em um palco, no qual deveria prevalecer a imparcialidade, a transparência, a ética, a moral, a discrição, a humildade, a independência da magistratura dentro das diretrizes fundamentadas na Constituição Federal.
Em qualquer circunstância, o duelo de egos é sempre vexatório, uma vez que não é conduzido pelo bom senso. Há um receio de que essa crise seja agravada, mas também há o receio de que venha “acabar em pizza”, uma “suprema pizza”. Dependendo das cenas dos próximos capítulos e das revelações que ainda estão por vir, as desconfianças sobre as ações da suprema corte serão ampliadas, levando a uma descrença na imparcialidade dos julgamentos que executam.
E aqui cabe citar o arminho, um pequeno animal carnívoro, que vive nas florestas temperadas árticas e subárticas da Europa, Ásia e América do Norte. Ele prefere a morte a ter a pelagem suja em lamaçal. Por essa razão, as suas ações geralmente levam a suscitar a expressão latina “malo mori quam foedari” (antes a morte que a desonra). Em razão desse comportamento, tornou-se símbolo de pureza e retidão. Por isso, muitos reis, rainhas, papas e magistrados usavam mantos e golas com pele de arminho para representar a fidelidade a seus princípios.
A lama de um banco manchou a idoneidade de várias pessoas que se apresentavam como ilibadas. Hoje, no mundo político, são raros os casos em que se constata a conduta de um arminho. A lama da corrupção, da ilicitude não os assustam. O envolvimento em falcatruas tornou-se caso banal. O “armar para se dar bem” já é assimilado como uma conduta normal. O burlar as regras do jogo para favorecimento próprio, o levar vantagem ludibriando o outro têm os méritos da “esperteza”. É triste ver o cinismo de quem demonstra não sentir nenhum pingo de vergonha ao ser desmascarado publicamente. As mentiras, as falsidades rotuladas de “fake News” tornaram-se plataformas políticas com explícitas intenções de enganar a população.
É preciso reverenciar e respeitar o povo que ganha o pão de cada dia com o suor do próprio rosto.
Ataualpa A. P. Filho.
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