Acumulados pluviométricos devem atingir os 100 milímetros, podendo atingir 300 mm até quinta-feira (22), no estado, segundo o Cemaden
Larissa Martins
Petropolis está sob aviso de chuvas fortes entre essa segunda-feira (19) e terça-feira (20). O Centro de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) emitiu um alerta sobre o avanço da frente fria e configuração da Zona de convergência do Atlântico Sul (ZCAS), chamando a atenção para a Região Serrana do Rio de Janeiro, com previsão de acumulados significativos e alta possibilidade de ocorrência de inundações bruscas e enxurradas, principalmente nos municípios de Petrópolis, Teresópolis e Cachoeiras de Macacu.
Mas, a frente fria tem potencial para causar pancadas de chuva fortes e volumosas em grande parte do estado do Rio. O destaque é para o litoral sul do RJ, onde os acumulados podem atingir os 100 milímetros em alguns pontos nesta terça.
Na sequência, a frente fria deve avançar e alinhar um corredor de umidade, com condições para chuvas persistentes e acumulados expressivos no RJ. Então, os acumulados poderão variar entre 200 e 300mm até quinta-feira (22/01).
Ao longo da semana, devido à atuação da ZCAS e aos altos acumulados previstos para os próximos 4 dias, são esperadas elevações nos níveis hidrométricos das seguintes bacias hidrográficas: Rio Doce, Rio Pomba, Rio Muriaé e Rio das Velhas, localizados na região Sudeste.
A previsão foi enviada ao Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres, o que só ocorre apenas quando há potencial de risco de processos hidrológicos e/ou geodinâmicos.
Reunião de preparação
Na manhã dessa segunda (19), secretários municipais e representantes de entidades e concessionárias participaram de uma reunião de alinhamento para coordenar a resposta rápida para o enfrentamento as fortes chuvas previstas.
“É importante estarmos alinhados e preparados. Internamente, a Prefeitura está se organizando, fortalecendo as equipes de várias secretarias e também organizando a logística de atendimento. São medidas de prevenção que já estão sendo tomadas”, disse o prefeito Hingo Hammes.
Participaram da reunião representantes das secretarias de Defesa Civil, Assistência Social, Educação, Obras, Segurança e Ordem Pública, Comdep, CPTrans, Guarda Civil Municipal (GCM); das concessionárias Enel, Elovias e Águas do Imperador; do 32º Batalhão de Infantaria Leve de Montanha, do Corpo de Bombeiros, da Polícia Militar (PM), APA Petrópolis ICMBio e do Setranspetro. “Essa integração é fundamental para garantir decisões rápidas, atuação coordenada e eficiência em cada frente de trabalho”, comentou o secretário de Proteção e Defesa Civil, Guilherme Moraes.
“Nosso compromisso é com a proteção da vida e a segurança da população. Seguimos monitorando as condições climáticas, antecipando ações e mantendo toda a estrutura do município mobilizada para enfrentar qualquer cenário, sempre com planejamento, prevenção e cuidado”, ressaltou o prefeito.
Segundo a prefeitura, ações integradas de preparação estão sendo realizadas desde domingo (18), com a emissão do aviso meteorológico, às 12h, informando a previsão de chuva forte. As equipes da Defesa Civil foram reforçadas, as câmeras do Cimop (Centro Integrado de Monitoramento e Operações de Petrópolis) foram liberadas e o efetivo do Corpo de Bombeiros foi reforçado.
Também há uma base descentralizada do ICMBio em Itaipava para as equipes da Defesa Civil e equipamentos e maquinários da Prefeitura e de concessionários em pontos descentralizados da cidade.
Estágio de Atenção
Às 16h15, a Defesa Civil entrou em estágio operacional de Atenção, e acionou o primeiro toque do sistema de sirenes no primeiro e terceiro distritos devido à previsão de chuva moderada a forte.
Às 17h, foram abertos, de forma antecipada, 14 pontos de apoio do primeiro ao segundo distritos. Foram eles: Escola das Comunidades Santo Antônio, E.M. Rubens de Castro Bomtempo, CEI Chiquinha Rolla, E. Paroquial Bom Jesus, E.M. Odette Fonseca, E.M. Governador Marcello Alencar, E.M. Germano Valente, E.M. Clemente Fernandes, E.M. Alto Independência, Escola São Cristóvão, E.M. Robert Kennedy, E.M. Papa João Paulo II, E.M. Rosalina Nicolay e E.M. Hercília Henriques Moretti.
A Defesa Civil pede que a população fique atenta às atualizações e, se possível, cadastre o CEP enviando mensagem de texto para o número 40199 para receber os alertas.O boletim meteorológico atualizará a previsão do tempo para a cidade, podendo ser acessado pelo link: https://www.petropolis.rj.gov.br/boletim .
Comitê Permanente de Chuvas
O Governo do Estado também mantém o monitoramento das condições meteorológicas por meio do Comitê Permanente de Chuvas, com atuação integrada da Defesa Civil Estadual, equipes de monitoramento do Cemaden-RJ, Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade e outros órgãos estaduais.
As secretarias e órgãos estaduais estão de prontidão para comunicar os riscos e atender a população em caso de emergência. A Defesa Civil do RJ já emitiu alerta, válido até ás 00h do dia 19/01 para municípios não autônomos das regiões Serrana I, Serrana II, Metropolitana e Noroeste.
“Estamos acompanhando de perto a evolução das chuvas e atuando de forma integrada para proteger a população. Todo o aparato do Estado está mobilizado, com monitoramento permanente, alertas preventivos e equipes preparadas para agir rapidamente sempre que necessário”, declarou o governador Cláudio Castro.
Ajuda humanitária
Para mitigar os impactos causados pelas chuvas, a Defesa Civil do RJ enviou no domingo (18/01) um contêiner abastecido com 102 kits dormitórios e 102 colchões para Angra dos Reis.
Estudo sobre desastres
Um estudo da Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica alerta que o verão é a estação do ano com maior registro de desastres climáticos relacionados às chuvas no Brasil, concentrando 44% dos eventos ocorridos nas últimas três décadas. O levantamento mostra ainda que os desastres associados a chuvas extremas aumentaram 320% no país na atual década.
Entre 2020 e 2023, foram registrados 7.539 desastres relacionados às chuvas, número muito superior aos 2.335 eventos contabilizados ao longo de toda a década de 1990. Os dados integram o relatório “Temporadas das Águas: O Desafio Crescente das Chuvas Extremas”, publicado pela Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica, sob coordenação do Programa Maré de Ciência, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a UNESCO e a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.
Tragédias de 2022
O estudo cita os eventos climáticos registrados em Petrópolis. Em fevereiro de 2022, chuvas extremas causaram enxurradas, transbordamentos de rios e uma série de deslizamentos de terra. Esse foi o maior evento de chuva extrema já registrado no município, com uma precipitação de 260 mm em cerca de 6 horas, superando a média histórica de fevereiro (238 mm para o mês inteiro), segundo o relatório.
Contudo, em março de 2022, uma nova tempestade atingiu o município, gerando o novo recorde de chuvas de 530 mm em um dia. Esse valor é superior ao acumulado de 476 mm registrado em 24 horas no local mais afetado pela passagem do Furacão Milton (categoria 3 ao atingir a Flórida) em 2024 nos EUA.
O evento de fevereiro foi o mais destrutivo, causado pela formação de uma célula convectiva de mesoescala: fenômeno atmosférico caracterizado por intensos movimentos verticais do ar, que geram chuvas fortes, trovões e até granizo. Esse evento foi intensificado pela atuação da ZCAS e pela passagem de uma frente fria. A combinação desses fenômenos resultou na morte de mais de 240 pessoas, deixou milhares de desabrigados e causou bilhões em prejuízos econômicos, aponta o estudo.
Milhões de vítimas
Além disso, o estudo revela que 83% dos municípios brasileiros já enfrentaram ao menos um desastre associado às chuvas, proporção que mais do que triplicou desde os anos 1990. No total, 91,7 milhões de pessoas foram afetadas por esses eventos entre 1991 e 2023. Apenas entre 2020 e 2024, os prejuízos econômicos chegam a R$ 132 bilhões, valor 123 vezes maior do que o registrado na década de 1990.
“O aumento não é apenas em frequência, mas também em gravidade. Os eventos estão mais intensos, mais destrutivos e atingem um número cada vez maior de pessoas”, explica Ronaldo Christofoletti, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) e professor do Instituto do Mar da Unifesp e coordenador do estudo. Segundo ele, a intensificação das chuvas extremas está diretamente relacionada às mudanças climáticas e tende a se agravar nas próximas décadas.
O levantamento aponta ainda mudanças no regime pluviométrico brasileiro. Até o fim do século, as regiões Sul e Sudeste podem registrar aumento de até 30% nas chuvas, enquanto Norte e Nordeste podem enfrentar redução de até 40%, de acordo com dados do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC).
Além dos impactos materiais, os efeitos sobre a população são expressivos. Entre 1991 e 2023, os desastres relacionados às chuvas provocaram 4.247 mortes, deixaram 8,7 milhões de pessoas desabrigadas ou desalojadas e causaram ferimentos ou doenças em cerca de 654 mil brasileiros.
Para os pesquisadores, os dados reforçam a urgência de investimentos em prevenção, adaptação e planejamento urbano, além da adoção de Soluções Baseadas na Natureza (SbN), como jardins de chuva, áreas verdes e sistemas de drenagem sustentável, capazes de reduzir alagamentos, deslizamentos e perdas humanas.
Veja também: