Fundada em 1926, igreja atravessou diferentes períodos da história da cidade, enfrentou episódios de intolerância religiosa, participou da formação de outras comunidades batistas e chega ao centenário conciliando memória, ação social e novas tecnologias
Jamis Gomes Jr. - estagiário
Há lugares em Petrópolis que fazem parte da paisagem da cidade há tanto tempo que acabam se tornando testemunhas silenciosas de sua história. Pessoas passam por eles diariamente, reconhecem suas fachadas, mas nem sempre conhecem as histórias guardadas atrás de suas portas.
A Primeira Igreja Batista de Petrópolis é um desses lugares.
Em 2026, a igreja completa 100 anos de existência. Um século marcado por mudanças na cidade, transformações na sociedade, diferentes gerações de fiéis e também pela construção de uma trajetória própria dentro da comunidade batista. Ao longo desse período, a instituição deixou de ser uma pequena congregação para se tornar uma comunidade com cerca de 900 a 1.000 membros, segundo o pastor-presidente Celso Ribeiro Filho.
Mais do que celebrar uma data, o centenário se tornou uma oportunidade para revisitar essa trajetória.
A própria igreja prepara uma publicação histórica que deverá transformar o levantamento realizado para o centenário em um livro. O material, atualmente em fase de revisão pelos membros, reúne nomes, datas, documentos, acontecimentos e personagens que ajudaram a construir os primeiros cem anos da instituição.
“Às vezes se esquece um ou outro nome, um dado e tal. Aí eles estão dando retorno, para a gente poder corrigir, acrescentar, fazer acréscimos ou supressões, e aí poder transformar num livro”, explica Celso.
Uma igreja que ajudou a formar outras igrejas
A história da Primeira Igreja Batista de Petrópolis também se confunde com a própria expansão da presença batista no município.
Quando foi organizada, a instituição era conhecida simplesmente como Igreja Batista de Petrópolis. Não havia necessidade de diferenciá-la de outras comunidades. Com o surgimento de novas igrejas, porém, ela passou a ser identificada como Primeira Igreja Batista.
Segundo Celso, a própria Primeira Igreja participou da organização de outras comunidades batistas da cidade.
A lógica, entretanto, não funciona como uma estrutura hierárquica na qual uma igreja "manda" sobre outra.
O pastor explica que um dos princípios fundamentais da organização batista é justamente a autonomia da igreja local.
As igrejas de Petrópolis integram a Associação Batista Petropolitana. As associações, por sua vez, fazem parte da Convenção Batista Fluminense, que se relaciona com a Convenção Batista Brasileira. Em uma escala internacional, as convenções nacionais integram a Aliança Batista Mundial.
Mas a participação em uma estrutura associativa não significa submissão administrativa.
A decisão sobre os rumos da igreja pertence à própria comunidade reunida em assembleia. O pastor-presidente cita inclusive sua própria posição como exemplo: apesar de estar à frente da instituição desde 1990, sua permanência depende da decisão da igreja local.
“É uma democracia plena mesmo, onde todo mundo tem direito ao voto”, afirma.
A estrutura ajuda a explicar uma característica importante da história da Primeira Igreja: ela pode participar da criação e do desenvolvimento de outras comunidades sem exercer controle permanente sobre elas.
Cem anos de nomes e histórias
O levantamento histórico produzido para o centenário revela a quantidade de pessoas que passaram pela instituição ao longo das décadas.
São dezenas de nomes relacionados aos mais diferentes ministérios e funções. Entre seminaristas, iberistas, secretários e integrantes de áreas administrativas e musicais, o documento recupera personagens que ajudaram a manter a igreja funcionando durante diferentes períodos.
Alguns nomes aparecem repetidamente ao longo da história, atravessando décadas e ocupando diferentes funções.
O levantamento também registra mulheres que participaram de maneira importante da trajetória da instituição, inclusive em áreas como música, secretaria, administração e ministérios.
Atualmente, a estrutura da igreja inclui pastores, ministros, secretários, administradores e funcionários responsáveis pelo patrimônio.
Entre eles está Lilian Mazzini de Britto de Castro, consagrada ao ministério pastoral em abril de 2023 e atualmente responsável pelo Ministério com Famílias.
Também integram o grupo atual os pastores Edemir Miranda Oliveira, responsável pelos Ministérios de Evangelismo e Missões, e Lucas Rinaldi Chaves, pastor do Ministério com Jovens, ordenado em dezembro de 2025.
Na presidência está Celso Ribeiro Filho, que assumiu o pastorado em 29 de abril de 1990.
36 anos à frente da igreja
A relação de Celso com a Primeira Igreja Batista de Petrópolis já ultrapassa três décadas e meia.
Antes de chegar à cidade, ele havia passado quatro anos pastoreando uma igreja em Cabo Frio, depois de concluir sua formação no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil.
Quando assumiu a Primeira Igreja, encontrou uma realidade bastante diferente da atual.
Segundo ele, pouco mais de cem pessoas frequentavam a igreja.
Hoje, o número gira em torno de mil membros.
Mas Celso afirma que o crescimento mais importante não está apenas na quantidade.
Para ele, o principal desafio de um pastor é conduzir uma comunidade numerosa sem concentrar todo o trabalho em uma única liderança.
“O grande desafio é você conduzir um grupo grande”, afirma.
A resposta encontrada ao longo dos anos foi descentralizar a estrutura e criar ministérios capazes de aproveitar os diferentes talentos existentes na própria comunidade.
“Dividir, descentralizar a liderança, tirar aquela visão ditatorial e nomear ministros para que eles pudessem trabalhar também no patrimônio, na ação social”, explica.
A ideia, segundo ele, é fazer com que os membros não sejam apenas espectadores, mas participantes ativos da vida da igreja.
Uma igreja para além das quatro paredes
Essa visão também aparece na atuação social desenvolvida pela instituição.
Um dos exemplos citados pelo pastor é o C3 Cristo, Criança e Carinho, projeto que nasceu ligado à igreja e posteriormente ganhou autonomia.
Localizado na região do Valparaíso, o projeto atende crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade, oferecendo acompanhamento e suporte.
“É um trabalho excelente”, afirma Celso.
Outro exemplo é o Anoitecer com Deus, iniciativa por meio da qual integrantes da igreja saem às ruas para oferecer alimentos e assistência a pessoas em situação de rua.
A própria sede da igreja também foi aberta à comunidade.
Segundo Celso, ao longo dos anos o espaço passou por uma mudança de concepção. Estacionamento, cantina, cozinha e outras áreas passaram a ser utilizadas de maneira mais aberta.
Pessoas em situação de rua podem, por exemplo, utilizar o espaço para tomar banho e receber roupas e itens de higiene.
A escolha das palavras também é importante para Celso. Durante a entrevista, ele chama atenção para a expressão “morador de rua”.
“Não é morador, é a pessoa que está na rua, porque moradia, morador decorre de moradia”, afirma.
A preocupação resume, de certa forma, a visão que ele diz ter orientado o trabalho desenvolvido pela igreja durante seu pastorado: o potencial da instituição deve estar voltado para servir às pessoas.
“É muito ruim quando o líder, o pastor, pensa em canalizar todo o potencial em favor dele, para enriquecer, para ter patrimônio. Isso é muito ruim. O ideal é que a igreja canalize todo o potencial dela em favor dela mesma, em favor da comunidade que está ao redor dela.”
Os que permaneceram
Entre tantas mudanças, algumas histórias atravessaram gerações.
Celso cita um dos membros mais antigos da igreja: Sebastião Augusto, que, segundo o pastor, está ligado à instituição há aproximadamente 72 anos.
Ele chegou ainda adolescente, acompanhado pelos pais, e permaneceu na comunidade mesmo depois da morte deles.
A trajetória remete a um período importante da história de Petrópolis, quando o antigo Palácio Quitandinha atraía visitantes e estudantes para a cidade.
A Primeira Igreja mantinha, naquela época, uma casa destinada a jovens estudantes batistas que vinham de outras cidades para estudar em Petrópolis.
A chamada Casa do Jovem Estudante Batista acabou aproximando várias pessoas da comunidade.
“Chegaram aqui adolescentes e estão aqui até hoje”, conta Celso.
São histórias como essa que ajudam a transformar os cem anos da instituição em algo maior do que uma sequência de datas.
Do papel à inteligência artificial
Se os primeiros registros da igreja foram feitos em documentos que hoje precisam ser recuperados e organizados, o futuro já aponta para outra direção.
A Primeira Igreja Batista de Petrópolis mantém site, redes sociais e transmissões de cultos pela internet.
A pandemia acelerou uma transformação que, segundo Celso, deverá continuar.
“A internet será o grande desafio, não só para a igreja enquanto instituição, mas para toda a sociedade”, afirma.
A igreja já trabalha com transmissões online, recebe pedidos de oração e relata conversões por meio das plataformas digitais.
A intenção é avançar para uma estrutura que combine a presença física com uma espécie de igreja online.
A tecnologia também já chegou à celebração do centenário.
Durante a programação comemorativa, a igreja apresenta um vídeo produzido com recursos de inteligência artificial para contar parte de sua própria história.
É uma imagem simbólica para uma instituição que começou sua trajetória em 1926: cem anos depois, a memória de sua fundação é contada também por uma tecnologia que sequer existia quando seus primeiros membros se reuniram.
Uma noite para celebrar um século
A programação do centenário também foi preparada para representar a dimensão histórica da data.
Entre as atrações está uma cantata composta especialmente para a celebração pelo músico Rafael Muniz, profissional ligado ao Teatro Petrópolis e com trabalhos realizados em diferentes partes do mundo.
A apresentação contará com orquestra e será regida pelo próprio compositor e por Gláucia de Souza Kobi Rangel, ministra de Música da igreja e formada em regência de orquestras.
O objetivo é fazer da celebração não apenas um culto comemorativo, mas uma noite que reúna diferentes aspectos da trajetória da instituição: música, memória, fé e comunidade.
Cem anos olhando para os próximos cem
Ao completar um século, a Primeira Igreja Batista de Petrópolis olha para o passado sem abandonar a preocupação com o futuro.
A instituição que já atravessou períodos de perseguição religiosa, mudanças de costumes, crescimento urbano, transformações administrativas, expansão das atividades sociais e revoluções tecnológicas agora precisa lidar com um novo desafio: permanecer relevante em uma sociedade cada vez mais digital.
Para Celso, entretanto, o princípio continua sendo o mesmo.
“A missão da igreja é amar o próximo.”
A frase se aproxima da própria mensagem que ele escolheu para marcar o centenário.
“Vale a pena servir a Jesus. Deixar a vida ser consumida no reino de Deus.”
Para o pastor, o centro da atuação da igreja deve permanecer no cuidado com as pessoas, independentemente de elas fazerem parte ou não da comunidade.
“Deus acima de todas as coisas e o próximo tem que ficar em evidência. Tem que ser socorrido pela igreja, não importa se ele está dentro ou não da igreja.”
Depois de 100 anos, a Primeira Igreja Batista de Petrópolis chega ao centenário carregando uma história feita por centenas de nomes, gerações de famílias, pastores, músicos, líderes, voluntários e fiéis.
Uma história que agora começa a ser organizada em livro.
Mas que continua sendo escrita todos os domingos, nos cultos, nas ações sociais, nas visitas, nas orações, nas transmissões pela internet e nas pessoas que atravessam suas portas.
Um século depois de sua fundação, a Primeira Igreja Batista de Petrópolis permanece, portanto, diante do mesmo desafio de qualquer instituição centenária: preservar a memória sem deixar de construir o futuro.
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