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Programas sociais seguem essenciais para famílias vulneráveis e movimentam economia local, apontam especialistas

Foto: Magnific
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Jamis Gomes Jr. - especial para o Diário de Petrópolis

Mesmo com a melhora do mercado de trabalho no país, milhões de brasileiros continuam dependendo de programas sociais para complementar a renda familiar. Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio da PNAD Contínua, mostram que, em 2025, 22,7% dos domicílios brasileiros tinham ao menos um morador recebendo benefícios como Bolsa Família, BPC-LOAS ou outros auxílios sociais. O levantamento foi divulgado pelo g1, em reportagem assinada pela jornalista Janize Colaço.

Segundo o estudo, a renda domiciliar per capita média das famílias que recebem algum programa social foi de R$ 886 no ano passado. Entre os beneficiários do Bolsa Família, o valor caiu para R$ 774, enquanto nos domicílios que não recebem o programa a média chegou a R$ 2.682, uma diferença superior a 70%.

O levantamento também aponta que os programas sociais continuam tendo papel importante no orçamento das famílias brasileiras, especialmente entre as camadas mais vulneráveis da população. Em 2025, cerca de 18 milhões de lares recebiam algum tipo de benefício social no país.

Para o economista Eduardo Bassin, os impactos desses programas vão além do auxílio direto às famílias e ajudam a movimentar a economia de municípios como Petrópolis.

“Em muitas cidades os recursos desses programas são de vital importância para a atividade econômica local. No caso de Petrópolis, pouco menos de um terço da população está inscrita no Cadastro Único, que é a base de dados para programas sociais, o que faz com que os recursos exerçam considerável efeito multiplicador”, explicou.

Segundo ele, o dinheiro recebido pelas famílias costuma ser utilizado rapidamente em despesas básicas.

“À medida que os beneficiários recebem os recursos, utilizam imediatamente para aquisição de itens básicos como alimentos, roupas e material de limpeza, geralmente em pequenos estabelecimentos comerciais da própria cidade. Esse aumento de consumo força os comerciantes locais a comprarem mais dos fornecedores locais que, não raro, precisam contratar mais funcionários”, afirmou.

O economista destaca ainda que, apesar de parte dos recursos circular para outros municípios, o movimento econômico acaba sendo positivo para todos os envolvidos.

“Dessa forma a ‘roda da economia’ se move, gerando mais renda e riqueza para o município. É fato que parte dos recursos vaza para outros municípios, mas os recursos gerados em outros locais também vazam para Petrópolis. No final todos ganham”, completou.

Benefícios também impulsionam comércio e serviços

Os dados do IBGE mostram ainda que os domicílios beneficiados costumam ter mais moradores. Enquanto famílias sem programas sociais possuem média de 2,5 pessoas por residência, nos lares atendidos pelo Bolsa Família o número sobe para 3,4 moradores.

Para o economista Natale Papa, além do papel social, os benefícios também funcionam como estímulo econômico local.

“Os programas sociais têm um impacto muito relevante na economia local, especialmente em cidades onde parte da população possui renda mais baixa. Em municípios como Petrópolis, por exemplo, esse dinheiro normalmente é gasto rapidamente em supermercados, farmácias, transporte, gás, roupas e pequenos comércios”, destacou.

Ele afirma que praticamente todo o recurso recebido retorna rapidamente para o mercado de consumo.

“Hoje, programas como o Bolsa Família não podem ser vistos apenas como assistência social. Eles também funcionam como uma espécie de estímulo econômico, principalmente em regiões mais pobres. Como as famílias beneficiadas têm pouca margem financeira, praticamente todo o valor recebido volta rapidamente para o consumo”, explicou.

Segundo Natale Papa, isso ajuda a movimentar diversos setores da economia local.

“Isso gera circulação de dinheiro no comércio, aumento da demanda por serviços e até arrecadação indireta para os municípios. Ao mesmo tempo, o principal objetivo continua sendo reduzir pobreza e insegurança alimentar”, acrescentou.

O levantamento do IBGE aponta ainda que os benefícios sociais responderam por 3,5% da renda domiciliar per capita nacional em 2025. Apesar de o percentual ter recuado levemente em relação ao ano anterior, especialistas apontam que isso ocorreu porque a renda do trabalho cresceu em ritmo mais acelerado, impulsionada pelo aquecimento do mercado de trabalho.

No ano passado, a taxa média de desemprego caiu para 5,6%, a menor da série histórica iniciada em 2012, enquanto a população ocupada atingiu recorde de 103 milhões de pessoas.

Desigualdade ainda é desafio no país

Mesmo com melhora dos indicadores econômicos, os especialistas avaliam que os programas sociais continuam sendo fundamentais diante do cenário de desigualdade no Brasil.

Para Eduardo Bassin, o crescimento econômico não tem sido suficiente para resolver problemas históricos de concentração de renda.

“Nunca houve tanta geração de riqueza no Brasil e no mundo como a que estamos testemunhando, e isso é uma grande notícia. Por outro lado há milhões de pessoas com renda insuficiente para garantir a ingestão adequada de alimentos. Isso para ficar no mais elementar”, afirmou.

O economista também rebate discursos que atribuem a situação apenas à falta de esforço individual.

“Sob nenhum aspecto é possível, e razoável, afirmar que esse problema seja devido à preguiça ou falta de mérito”, disse.

Segundo ele, o país ainda enfrenta graves problemas estruturais.

“A precarização do trabalho e a elevada concentração de renda precisam ser enfrentados incessantemente. O Brasil apresenta um dos piores Índices de Gini do mundo”, pontuou.

Bassin defende ainda que os programas sociais deixem de depender apenas de decisões de governo e sejam tratados como políticas permanentes de Estado.

“É necessário que os programas sociais deixem de ser uma Política de Governo e se tornem Política de Estado para evitar que os indicadores sociais avancem em um período e retrocedam em outro”, declarou.

Natale Papa também avalia que a dependência dos benefícios sociais revela problemas estruturais no mercado de trabalho brasileiro.

“O fato de milhões de brasileiros ainda dependerem de benefícios sociais, mesmo com melhora do mercado de trabalho, mostra que o problema não é apenas desemprego. Existe uma questão estrutural de baixa renda, informalidade e aumento do custo de vida”, explicou.

Ele ressalta que muitas pessoas continuam trabalhando, mas ainda não conseguem cobrir despesas básicas.

“Muitas pessoas até trabalham, mas recebem salários insuficientes para cobrir despesas básicas como alimentação, aluguel, transporte e energia. Isso revela que a desigualdade no Brasil continua muito elevada e que crescimento econômico sozinho não garante melhora imediata na qualidade de vida da população mais vulnerável”, concluiu.

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