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Quando o “eu” se distrai

- Mario Donato D’Angelo

Arquivo Pessoal
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Descobre-se quem se é, muitas vezes, quando não se está pensando nisso.

Não acontece diante do espelho, nem no meio de uma pergunta solene, formulada com ar grave e resposta preparada. Acontece em cenas mínimas, quase sempre esquecíveis. Numa fila qualquer, dessas que avançam devagar, quando o tempo parece suspenso e ninguém olha para ninguém. Cada um recolhido ao próprio cansaço, ao próprio dia.

Observa-se alguém à frente. Nada chama atenção. Roupas comuns, postura cansada, o olhar preso a um ponto distante do presente. Em certo momento, uma moeda cai. Um som seco, breve, que poderia passar despercebido. Antes mesmo que o gesto seja pensado, alguém se abaixa, apanha a moeda e a devolve. Um sorriso curto. Um agradecimento discreto. A fila anda. O mundo segue.

Nada aconteceu.

E, ainda assim, algo se revelou.

Há momentos em que o “eu” aparece quando não tenta ser coerente, interessante ou fiel a uma imagem construída com esforço. Quando age antes de se explicar. Quando responde sem ensaio, sem cálculo, sem intenção de ser visto.

Passamos boa parte da vida tentando sustentar uma narrativa sobre quem somos. Dizemos no que acreditamos, o que defendemos, o que nos define. Organizamos frases, lembranças, convicções. Repetimos histórias sobre nós mesmos até que elas soem verdadeiras. Mas, no fundo, somos menos aquilo que declaramos e mais aquilo que fazemos quando não há plateia.

É no gesto curto que algo se entrega. Num cuidado involuntário. Numa impaciência súbita. Num silêncio mantido quando seria fácil ferir. Ou numa palavra atravessada, dita sem necessidade. O “eu” escapa justamente quando não está sendo vigiado.

Todos já conheceram pessoas que se diziam generosas, mas nunca tinham tempo. Outras, quase invisíveis, que ofereciam abrigo sem alarde, sem discurso, sem fotografia. Gente que falava em coragem, mas evitava o risco mínimo. E gente que, sem qualquer retórica, atravessava o medo com passos pequenos, repetidos, firmes.

O “eu” não se revela nos grandes pronunciamentos. Ele aparece no tom de voz, na forma de esperar, na maneira de escutar alguém até o fim, sem interromper para dizer algo mais inteligente. Surge quando algo dá errado e não há testemunhas. Quando a vida surpreende e não dá tempo de representar.

Há dias em que nos reconhecemos mais numa falha do que num acerto. Em outros, numa gentileza automática que nem sabemos de onde veio. Nessas horas, fica claro que não somos exatamente quem pensamos ser, nem quem gostaríamos de parecer. Somos o que se manifesta no intervalo estreito entre intenção e ato.

Por isso é tão difícil responder à pergunta “quem somos nós?”. A resposta muda conforme o dia, o cansaço, a companhia, a hora. Somos outros quando estamos sós. Diferentes quando amamos. Menores quando temos medo. O “eu” não é um retrato pendurado na parede. É movimento, atrito, adaptação.

Há um certo alívio em aceitar isso. Não precisar sustentar uma identidade rígida como quem carrega um uniforme. Não ter de ser sempre igual. Permitir-se variar sem culpa. Errar sem desabar. Acertar sem se inflar.

Talvez seja por isso que os momentos mais reveladores sejam também os mais simples. Eles passam sem aviso, não pedem registro, não exigem memória. Acontecem e se vão. Restam apenas como uma impressão leve, quase invisível, dessas que só fazem sentido depois.

O “eu”, quando muito observado, endurece.Quando se distrai, respira.

E, no fim das contas, ninguém é o personagem que imagina ser. Somos o rastro breve que deixamos ao passar. Todo o resto é a biografia que inventamos para suportar o tempo.

Curso de prevenção de quedas.

Proteja quem você ama !

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