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Quase um século no topo: a história da escalada em rocha em Petrópolis

Foto: Divulgação
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Darques Júnior - Estagiário

Instituído pela Lei nº 8.946 de 2024, o Dia Municipal da Escalada em Rocha tem como intuito valorizar o esporte, declarado patrimônio cultural imaterial, além de promover o turismo da região. A data faz homenagem ao dia em que os escaladores Emérico Ungar, Contad Berk e Schaut conquistaram a Via da Canaleta, na Pedra da Maria Comprida, em 1932.

O ativista ambiental e montanhista Julian Kronemberg explica a importância desse feito para a escalada no município, que inspirou diversas gerações de montanhistas na região. "Ao longo de quase um século, Petrópolis consolidou-se como um dos principais polos da escalada em rocha do Brasil", disse.

Julian comenta que Petrópolis reúne mais de 600 vias distribuídas em mais de 100 setores, boa parte protegida por unidades de conservação, como o Parque Nacional da Serra dos Órgãos (Parnaso) e o Monumento Natural Estadual Serra da Maria Comprida (MoNa Maria), além de destacar conquistas como o Paredão Dom Pedro II, no Pico do Cobiçado, a Fissura CEP, no Morro da Cabeça de Cachorro, e a via de escalada No Fio da Loucura, primeira escalada no estilo big wall petropolitana. "A Pedra da Maria Comprida é o maior monólito granítico do Estado do Rio de Janeiro, sendo o maior símbolo da escalada petropolitana e uma das mais importantes referências brasileiras para escaladas de grandes paredes."

Montanhista desde 1989, aos 14 anos, Julian relata que conheceu de perto várias trilhas, nascentes, áreas de preservação e vias de escalada atuando como guia, escalador e montanhista. "Desde 1993, atuo como guia do Centro Excursionista Petropolitano, acompanhando diretamente a evolução e as necessidades do montanhismo na cidade", disse.

Sobre a evolução da escalada no município, o ativista contou que, a partir da primeira conquista em 1932, a prática ganhou um novo impulso na década de 1960, quando diversos montanhistas passaram a desenvolver a atividade de forma técnica e organizada. "Dessa fase surgiram vias clássicas: o Paredão D. Pedro II (1960) e o Paredão 15 de Maio (1968)."

Uma nova conquista na década de 1970 impulsionou uma nova geração de escaladores, com as aberturas das vias do Paredão El Toro e Giabra, ambas localizadas no Morro da Formiga em dezembro de 1973, com cerca de 150 metros de extensão. "Diante da dificuldade de importar equipamentos, escaladores petropolitanos passaram a fabricar artesanalmente os primeiros dispositivos nacionais de proteção móvel, demonstrando criatividade e espírito pioneiro", disse Julian.

Com os avanços tecnológicos nos anos 1980, o montanhista conta que, em 1987, a abertura da Fissura Puma, no Morro da Formiga, marcou o início da escalada esportiva no município, e na década de 1990 a atividade se expandiu com novas conquistas, como a Pedra Comprida, no Parnaso, e a Cabeça de Cachorro, localizada no Samambaia. "Em 1998 foi aberta a via No Fio da Loucura, primeira big wall da cidade. Em 2002, foi aberta a Via Maria Nebulosa, com mais de mil metros de extensão, que consolidou definitivamente a Pedra da Maria Comprida entre as maiores referências brasileira em escaladas de grande parede”, disse.

O ativista ainda comenta que tramita na Assembleia Legislativa do Estado (Alerj) o Projeto de Lei nº 3.041/24, dos deputados Carlos Minc (PSB), Yuri Moura (Psol) e Sérgio Fernandes (PSD), que propõe declarar Petrópolis Capital Estadual da Escalada em Rocha. "A iniciativa busca fortalecer políticas públicas voltadas à conservação das vias históricas, incentivar a abertura sustentável de novas rotas, promover o turismo de aventura e valorizar um patrimônio esportivo, cultural e ambiental que integra a identidade petropolitana."

Sobre o futuro, o ativista comenta que, a quase um século de história, a prática vive um momento decisivo, tendo hoje como missão preservar a essência de uma atividade construída sobre aventura, ética, liberdade, respeito à rocha e compromisso com a natureza. Para ele, ao mesmo tempo em que o crescimento da modalidade trouxe milhares de novos praticantes, impulsionou o turismo de aventura e ampliou sua visibilidade, surgiram novos desafios, como a massificação, a influência das redes sociais, a pressão sobre áreas naturais e a necessidade de conciliar diferentes estilos de escalada.

Julian ainda ressaltou que preservar a integridade da rocha, respeitar as características das vias históricas e fortalecer a convivência harmoniosa entre a escalada tradicional e a esportiva são princípios fundamentais para garantir a continuidade desse patrimônio. "A verdadeira evolução não se mede apenas pelos maiores graus de dificuldade, mas pela capacidade de proteger a história, a ética, a diversidade de estilos e os valores que fizeram da escalada uma das mais nobres atividades de contato com a natureza."

O ativista finalizou destacando a celebração de quase um século de coragem, pioneirismo e paixão pelas montanhas, além de pontuar a importância de reconhecer quem abriu os caminhos, preservando a memória de suas conquistas e renovando o compromisso de manter viva a tradição. "Fortalecer as entidades representativas, conservar as áreas naturais, transmitir conhecimento às novas gerações e defender a prática responsável serão ações decisivas para que esse legado permaneça vivo", concluiu.

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