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  Colunistas
Reinaldo Paes Barreto
COLUNISTA

 

 

Cordas para amarrar o vento (*)

O Dia da Mentira começou como uma pegadinha, e não uma falsificação. Mas falsificar é uma tentação que vem de longe. Na área dos vinhos, então, acontece na proporção direta ao custo final da garrafa – ou do lote, se a venda for em leilões.

Dois exemplos.

O meu amigo e veterano colunista de vinhos, pratos consagrados e suas histórias, J. A. Dias Lopes, conta esta – verdadeira -- ocorrida no Restaurante Zafferano de Londres. Um senhor bem apessoado sentou-se para jantar, chamou o sommelier e pediu a carta de vinhos. Depois de um exame de uns 5m, escolheu um Petrus 1968. O escanção, como é chamado em Portugal, foi até a adega e trouxe a preciosidade com a cerimônia requerida. O cliente pegou a garrafa, observou atentamente a rolha e disparou: “este vinho é falso. Sem dúvida”. E a devolveu sem comentários ao sommelier que, como convém em restaurantes estrelados, se retirou em silêncio levando a garrafa. O senhor consultou de novo a carta e pediu um Margaux 1945. Novo ritual: mas desta vez o freguês aprovou, bebeu o vinho todo (que acompanhou com perfeição o jantar) e pagou em dinheiro.

No dia seguinte foi convidado pelo dono do restaurante e uma jornalista da Wine Spectator para um “Porto de honra”. E explicou com naturalidade o ocorrido na véspera: “eu sou produtor de rolhas e as forneço com exclusividade para o Petrus. E a rolha  daquela garrafa não era minha”.     

E a estrondosa fraude da venda de vinhos caríssimos, também em leilões, nos Estados Unidos, pelo imigrante indonésio Rudy Kurniawan, já neste século. Esta história, inclusive, virou filme “Sour Grapes” (uvas azedas) e faz sucesso agora no Netflix. Em 10 anos ele teria movimentado algo como 500 milhões de dólares, entreleilòes e vendas diretas. Até que em 2008 o filho e herdeiro do Domaine Ponsot, voou até NY para desmascarar o leilão em que estavam à venda várias garrafas deste néctar da Borgonha. O caso foi parar na justiça e em 2013 Rudy foi preso na prisão federal de El Paso, aonde ficou até novembro de 2020 quando foi solto ... mas aguarda decisão judicial sobre o seu destino que poderá; ele poderá ser deportado.


 Foto: o falsário Rudy Kurniawan

Bom, mas e o “Dia da Mentira”, em si?

Há várias versões para a sua data “cair” (com trocadilho) no Primeiro de Abril. Mas prefiro esta: até o século 16 o Ano Novo, na Europa, era comemorado no dia 22 de março, início da primavera. Tudo a ver: fim da escuridão do inverno, início do ciclo agrário, etc. Detalhe: as festividades duravam até o dia primeiro de abril, data em que se trocavam presentes.

Em 1567, contudo, o Rei da França, Carlos IX, decidiu (sabe-se lá o porquê) que o ano começaria a primeiro de janeiro, início que o calendário gregoriano iria estender aos católicos 15 anos depois, por decisão do papa Gregório XIII. Mas pode-se imaginar a lentidão com que uma notícia chegava à uma França remota, rural e, mesmo após ser divulgada, a incredulidade dos camponeses, aldeões e interioranos em geral, hereditariamente desconfiados, se era uma ordem para valer – ou não – fez com que toda aquela gente continuasse comemorando no dia primeiro de abril.

Aí, alguns sacripantas (?) começaram a marcar festas nesse primeiro dia do segundo trimestre, que não aconteciam; mandar presentes como “corda para amarrar vento” (*), uma típica gracinha francesa da época, para zoar dos que caíam no primeiro de abril.

E por uma dessas dinâmicas “da ordinarez”, como diz a minha amiga Sylvia Soares Diehl, a troça se espalhou pelo mundo. Na França é batizada de poisson d’avril, nos EUA de april fool , no Reino Unido de april gowk – e por aí vai.

No Brasil, o primeiro estado a adotar a brincadeira teria sido Pernambuco. Um jornal do Recife chegou até a publicar, no 1° de abril de 1848, uma notícia sobre a morte de D. Pedro II.

 


 Foto: D. Pedro II falsamente morto

O imperador levou na esportiva e, nessa noite, bebeu uma taça de vinho a mais para brindar à sua ressurreição!

Epílogo: quanto aos vinhos, hoje já existem empresas desenvolvendo papéis especiais para a rotulagem, com novas tecnologias de gravação de marcas invisíveis a olho nu. Para o caríssimo vinho francês Château d’Yquem, por exemplo, já se usam etiquetas com marcas d’água similares às da fabricação de cédulas de dinheiro, fabricadas por uma gráfica de Paris. Um verdadeiro holograma.

E as garrafas de outras grandes vinícolas já imprimem códigos visíveis por qualquer um de barra nos vidros.


 Foto: marcação nas garrafas de vinho

Quanto à safra (outra forma de falsificar é colocar um vinho de um ano menos nobre na garrafa vazia de uma ótima colheita), especialistas franceses inventaram uma técnica muito parecida como a que é utilizada no mundo das artes plásticas, atualmente. É uma  segunda geração do que foi, até pouco tempo, a do uso do Carbono 14 para identificar a idade de um quadro. Este novo método consiste em colocar a garrafa de vinho sob um raio de íon e com um acelerador de partículas medir a radiação emitida. Os resultados revelam a idade do vinho que está dentro da garrafa.

Já quanto a cair no primeiro de abril, relaxe, essa “peta” está saindo de moda: e tem verdades muito mais incômodas nos tirando o sossego.

Em tempo: o vinho falsificado foi enviado à Petrus, que até aonde pude apurar, nunca respondeu. E tudo indica que o senhor é o António Amorim, dono de hectares plantados com sobreiros e o maior produtor de rolhas de Portugal.



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