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  Colunistas
Reinaldo Paes Barreto
COLUNISTA

 

 

Bebendo estrelas!

Mas antes, conto uma história. Em maio de 1989, estava eu em NY a trabalho e decidi trocar o sagrado drinque da tardinha no Oak Bar do Plaza, onde estava hospedado, pelo “Negroni” do charmoso bar do Hotel Pierre. Sentei-me naquele banquinho alto do balcão e pedi um champagne  -- premunição?) “De repente”, entrou a Audrey Hepburn com dois casais, também com pinta de artistas de cinema. Sentaram-se numa mesinha e peditam ... champagne. Apurei o olhar e pude ver que era um Moet & Chandon, Brut Impérial


 Foto: Audrey Hepburn

Menos de uma hora depois, surgiram dezenas de repórteres e fotógrafos e ficaram, ali na entrada, aguardando. Ela se levantou  e foi ao encontro deles para uma entrevista, o que me surpreendeu porque há um jogo-jogado de não perturbar celebridades dentro de hotéis estrelados... “however” era uma data especial que vim a descobrir na sequência: ela estava fazendo 60 anos!

A primeira pergunta foi aquela clássica e tola, mas bem típica da reportagem americana da época: "qual é o segredo da sua beleza, Mrs. Hepburn?" Ela fez aquele "wellll", também clichê e respondeu: "boa saúde e má memória".

Bingo.  Memória envelhece...

Bom, vamos lá de champagne Moet&Chandon (o meu computador infelizmente não tem o trema que, no caso fica em cima do e de Moet e, por isso, pronuncia-se “moet” com registro do t mudo), Brut Impérial.  Mas por que “impérial”?  Porque o menino corso Napoleão Bonaparte nasceu em Ajaccio, em 1769, na Córsega, de pais pobres e aos 10 anos foi mandado estudar a cerca de 2 mil quilómetros de distancia, do outro lado da França, na Academia Militar de Briènne.  Nos fins de semana os alunos iam para suas casas e ele, sem recursos, ficava sozinho – segundo os biógrafos, estudando gegografia e as guerras do império romano. Certa sexta-feira, contudo, foi convidado e aceitou de imediato o convite de um colega de sala, Jean-Rémy Moet, neto do fundador da vinícola que produzia esse já conhecido champagne (em francês é masculino) para ir com ele a Épernay, na região produtora demarcada desses célebres espumantes. Voltou alguns outros fins de semana e nunca mais esqueceu esse gesto de acolhimento. No dia da sua coroação, em 1804, cumprimentando a legião de “súditos” no átrio da Notre-Dame, identificou na fila o antigo “copain”. E num gesto de gratidão lhe disse: “agora que sou imperador, venha passar um fim de semana comigo em Paris...”

Mas, rico é rico. Jean-Rémy saúdou o vitorioso colega, mas respondeu: “não, je déteste Paris”. Venha você matar as saudades e me visitar sempre que puder, em Épernay”. E Napoleão levou a sério o convite e antes de todas as suas batalhas, passava por Épernay para se abastecer do precioso vinho que, durante as noites do trajeto ele abria degolando a rolha com a sua espada. Estava criado o “sabrage”. A única batalha que ele falhou foi... Waterloo!

Cortesias recíprocas: 48 anos depois da sua morte, em 1869 e para comemorar o centenário de seu nascimento, a Maison lançou o champagne brut Impérial, em homenagem ao titulo (imperador) que ele tanto valorizava, porque chega-se a rei pelo sangue, mas a imperador pela espada, segundo o próprio.


 Foto: Don Pérignon

O Champagne “nasceu” em Épernay, capital da região francesa, demarcada (AOC) de Champanhe, no nordeste do país, pelo monge beneditino da Abadia de Hautvilliers, Don Pérignon. Em 1670 ele desenvolveu o método (*) que se resume basicamente em um princípio: a segunda fermentação das uvas se dá dentro da garrafa. E mais: a) faz-se a prensagem em separado das uvas tintas -- em geral duas: Pinot Noir e Pinot Meunier, -- e da branca, em geral a Chardonnay; b) usam-se garrafas mais grossas para não explodirem com a pressão da segunda fermentação lá dentro; c) a vedação se dá com rolhas de cortiça (no caso dele, vindas da Espanha. Hoje, Portugal é o maior produtor). E a guarda das garrafas tem que ser em caves muito abaixo do solo, para protege-las da luz e do barulho.


 Foto: as caves da Moet&Chandon em Épernay

Detalhe: pode-se produzir champagne só com uvas brancas – Blanc de Blancs – ou só tintas, o Blanc de Noirs (**).

E o que vai provocar as borbulhas são as bolhas de dióxido de carbono.

A temperatura ideal para servir todos os três (Proseccos, Espumantes ou Champagne) é entre 6 e 8 graus. E todos podem ser apreciados a qualquer hora do dia ou da noite, porque como disse o inventor do Champagne, o monge Don Pérignon, “vamos beber estrelas”!

(*) São dois os métodos de vinificação: pode ser o champenoise (a maioria dos espumantes) em que a primeira fermentação se dá em cubas ou tanques e, a seguir, é adicionado o chamado licor de expedição (liqueur de tirage), composto de líquido com açucares e leveduras e então coloca-se o vinho em suas garrafas definitivas, para a segunda fermentação; ou o charmat que consiste em induzir a segunda fermentação fora da garrafa, em tanques de inox (autoclaves)

(**) Pode-se produzir vinho branco com uvas tintas (separando-se as cascas tintas do líquido, branco cerca de 10h depois da presenagem), mas não se pode produzir vinho tinro com uvas brancas.



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