Edição anterior (2398):
sexta-feira, 04 de junho de 2021
Ed. 2398:

Capa

Compartilhe:

Voltar:

HOJE

Edição anterior (2398): sexta-feira, 04 de junho de 2021

Ed.2398:

Compartilhe:

Voltar:


  Colunistas
Reinaldo Paes Barreto
COLUNISTA

 

 

Sempre em uma quinta-feira

Sim, a data de Corpus Christi “cai” sempre em uma quinta-feira, o que aliás me deixa intrigado há muito tempo, porque se os dias da semana se mexem dentro do calendário, como calcular que o 60’ dia depois da Páscoa será uma quinta-feira? Ou a contagem é de trás para diante?

Cartas para a redação.

Mas nesta quinta-feira (3/6) o mundo católico celebra uma vez mais o Corpus Christi, um feriado religioso que vem do século XIII. Foi o Papa Urbano IV, em 1264, que instituiu a obrigatoriedade da celebração da Eucaristia nas missas, essencialmente para reafirmar a presença real de Cristo, que consagrou o pão e o vinho na Última Ceia, como o seu corpo e o seu sangue.  E a “lógica” dessa obrigatoriedade foi a forma de responder ao ceticismo dos cristão na Idade Média, que demonstravam a necessidade de “ conferir”  as liturgias. Tanto que outra medida nesse sentido -- e como complemento dessa obrigatoriedade – foi (é) o ritual de elevar a hóstia e o cálice de vinho, depois da consagração, para satisfazer a curiosidade daqueles que iam à igreja mais para ‘ver’ o Corpo e o Sangue de Cristo, do que para participar efetivamente da missa.


 esboço em carvão de Da Vinci do século XV

E esse ritual saiu porta afora das Igrejas, ganhando as ruas, porque o Vaticano percebeu que havia necessidade de dar mais visibilidade ainda à Eucaristia, incentivando a decoração de calçadas e a mobilização popular, de forma a tornar cada vez mais palpável  a presença de Cristo.  As procissões tiveram início nessa época e ganharam novas formas e formatos ao longo do séculos seguintes, sempre prestigiadas pelas mais altas autoridades eclesiásticas e do Estado.


  procissão em Portugal em 1909

Mas, “para além”(como dizem os portugueses) da visibilidade com que as procissões “prolongam” a presença do Corpo de Cristo, elas traduzem também  uma parábola: a caminhada do povo de Deus, os judeus peregrinos, em busca da Terra Prometida. E assim como o Antigo Testamento nos diz que o povo peregrino foi alimentado com maná,(*) que são grãos do deserto, durante a travessia, com a instituição da eucaristia (**) o povo é alimentado com o próprio corpo e sangue de Cristo.


 o maná

Por isso, a Igreja Católica celebra esta festa, inclusive com a cerimônia conduzida pelo próprio Papa, em Roma, na Basílica de São João Latrão, como esta de há dois anos com Francisco. “Este é o momento de rememorarmos a herança mais preciosa deixada por Cristo, o sacramento da sua própria presença’, através da Eucaristia, disse ele.


 Papa Francisco bebe o vinho consagrado

Bom, a hóstia todos nós sabemos é feita de pão, mas e o Vinho Canônico? Ele é produzido como todos os vinhos de mesa, a partir da fermentação do mosto da uva (cascas esmagadas), quando as leveduras entram em contato com o oxigênio e transformam o açúcar em álcool etílico. Com a diferença que o vinho de missa leva um acréscimo de açúcar e de aguardente de uva, para cortar a fermentação (o vinho deixa de envelhecer), o que o torna mais licoroso, mais alcoólico (entre 18% e 22% GL) e mais longevo: o açúcar conserva, haja vista os chamados “vinhos fortificados” --  Porto, Madeira, Xerez -- que cravam 100 anos com os pés nas costas! Em geral é um vinho tinto, mas de alguns 30 anos para cá, o Vaticano autorizou que se possa celebrar a missa com vinho branco, porque – dizem as más línguas, e as há até na Santa Sé! -- as freirinhas não aguentavam mais lavar aquelas toalhinhas imaculadamente brancas com manchas “de sangue”!

Vocês já provaram? Eu já, inclusive bento, numa missa anglicana em Londres. Com todo o respeito ao simbolismo ali contido, é muito ruinzinho! Até porque é doce, licoroso e... quente (muitas vezes guardado naqueles armários de sacristia, junto com incenso, mirra e velhas batinas...). Eu, por exemplo, prefiro me juntar hoje aos milhões de fiéis na celebração do Corpus Christi ... só que degustando um Châteauneuf-du-Pape, para ficar “no clima”!

(*) Maná (no hebraico: ???? man). O livro bíblico de Êxodo o descreve como um alimento produzido milagrosamente, sendo fornecido por Deus ao povo de Isarael, liderado por Moisés, durante toda sua estada no deserto rumo à terra prometida. Segundo o Êxodo, após a evaporação do orvalho formado durante a madrugada, aparecia uma coisa miúda, flocosa, como a geada, branca, descrita como uma semente de coentro, e que lembrava pequenas pérolas. Modernamente é  cozido, ou assado, sendo transformado em bolos. Diz-se que seu sabor lembrava bolo de mel. Muito provavelmente daí a expressão “é um maná do céu”!

(**) Segundo os textos no Novo Testamento, eucaristia é o rito cultual (sacramento e sacrifício) instituído por Jesus Cristo na última ceia, no qual Ele mesmo se oferece a Deus e se comunga transformando o pão e o vinho em seu corpo e no seu sangue.

 

 



Edição anterior (2398):
sexta-feira, 04 de junho de 2021
Ed. 2398:

Capa

Compartilhe:

Voltar:

HOJE

Edição anterior (2398): sexta-feira, 04 de junho de 2021

Ed.2398:

Compartilhe:

Voltar: