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  Colunistas
Reinaldo Paes Barreto
COLUNISTA

 

 

Cautela e caldo de galinha (*)

 

Estão voltando, aos poucos, as viagens internacionais e, claro, Paris é sempre um destino desejável, sobretudo para quem estava com passagens “represadas”. Tanto que um casal, querido amigo nosso, resolveu passar este Réveillon por lá e eu, como sempre faço, dei a minha listinha com dicas de restaurantes, bistrôs, igrejas, museus, passeios e, SOBRETUDO, as  furadas, já que me orgulho de conhecer bem a capital francesa. Exemplos de cautela: mes enfants, não se empolguem! Nada de pedir escargots na primeira noite, se nunca provaram;  nem ”ris de veau”  (timo ou pâncreas do vitelo — uma delícia, mas tem que ser do ramo); nem duas garrafas de vinho no almoço, nem achar que 50 são reais (com trocadilho!). Nãaao: são euros! Os excessos de comida e bebida, tudo bem: já soube de muitos brasileiros que passaram metade da estada ”no trono”, ou com enxaqueca, ou pegaram o metrô na direção oposta porque foram tomar um Armagnac depois do almoço! Mas até aí tudo acaba se resolvendo. O meu recado mais enérgico, no entanto, é outro: cuidado com os preços. E já nem estou falando em câmbio, Paris é cara mesmo em euros...
 


 

Pois bem: este casal de quem vos falo resolveu jantar no clássico La Coupole, em Montaparnasse (**), logo na primeira noite. Sentaram-se, por acaso, perto da mesa de dois casais ”com cara de franceses ricos”. Pediram o menu, e tal, escolheram filé com fritas pra ele e omelete “aux fines herbes” para ela (atentos ao título deste artigo!) mas, na hora do vinho, começou a hesitação. Olhavam a lista, comparavam os preços, viravam as páginas… quando de repente ele teve uma ideia. Lembrou-se do que eu tinha sugerido: na dúvida, peçam o vinho da casa, de preferência rouge, que em geral vem numa “carafe”, tipo jarro de sucos de frutas.
Olharam para a mesa dos tais casais e… bingo!  É isso aí! Chamaram o sommelier que havia se afastado e apontaram para o vinho-vizinho. O dito cujo lançou um olhar de relance e disse “bien sûr”. Sumiu e surgiu logo depois com uma garrafa aberta, rolha no pires, mão esquerda atrás das costas, para a conferência do pedido.  Eles acharam “coisa de restaurante sofisticado”, mas foram em frente com o melhor ”oui”, fazendo biquinho. Jantaram na maior felicidade (quase que ainda iam pedir um digestivo, mas a mulher freou o ímpeto tanto que não pediram nem sobremesa, nem café, ) e ele, então, caprichou no francês: “garçon! l’addition, s’il vous plaît…”
Quando a conta chegou dentro de um livreto, quase enfartaram! Uma soma muito além da esperada — cerca de 400 euros! Duzentos e cinquenta só do vinho! E mais cento e cinquenta, do resto. Foram conferir: claro, o vinho era um Bordeaux 2005 (um grande ano) e o garçom explicou tranquilamente que aquele recipiente não era uma carafe. Era um decanter!
 


 

Resultado subsequente:  passaram os dois dias seguintes almoçando “sanduba” com água Perrier, ou crepe, e jantando no quarto do hotel “coisas” compradas no Prix Unique da esquina,  escoltadas apenas por duas bières… Bem, deles eu sei esta história, porque me contaram (querendo me repassar um traço de culpa!!!), mas imagino que muitos outros, muitos, caíram em arapucas semelhantes. Por isso, a sugestão deste blog é: chequem os preços, calculem o câmbio, não tenham vergonha de escolher o que estiver à altura do bolso e nunca se esqueçam que – parodiando o Ferreira Gullar -- vinho não foi feito para humilhar ninguém!
(*) Eu prefiro a minha versão do ditado: cautela, caldo de galinha e Moet & Chandon não faz mal a ninguém. (atenção revisores: Moet tem trema no e)
(**) o nome Montparnasse é uma “apócope” de Monte Parnaso, montanha da Grécia que era considerada residência de Apolo e de suas nove musas… era assim que se “achavam” os intelectuais homens e mulheres que frequentavam o bairro no século XIX.

 



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