Vitor César e Demétrio do Carmo especial para o Diário
Uma matéria da jornalista e escritora Cristina Fibe, publicada pela Revista Piauí, nessa semana, colocou o Coral das Meninas Cantoras de Petrópolis no centro de uma polêmica, envolvendo denúncias de assédio moral e sexual, que teriam sido praticados contra as componentes pelo então maestro Marco Aurélio Xavier, fundador do Coral, nos anos 70. De acordo com a publicação, foram ouvidas, desde 2024, 17 mulheres, entre 24 e 60 anos, que relataram os abusos cometidos, a maioria no anonimato, ainda temerosas com a repercussão do caso.
Entre as memórias, elas citam que eram proibidas de se aproximar das celebridades que encontravam nos camarins de teatros e emissoras de TV, e que eram desencorajadas a esticar conversas, pedir um autógrafo ou fazer fotos. Como parte de uma conduta disciplinar implacável, as meninas não podiam faltar. A ausência, em um único dia, implicava perder a “medalha de ouro” no fim do ano e passar a receber um tratamento com silêncio ou hostilidade. Outros relatos revelam que, até mesmo doentes, as coralistas eram obrigadas a se apresentar e algumas desmaiavam durante as apresentações.
O caso chegou à Câmara Municipal. Durante sua fala na sessão da terça-feira (2), a vereadora Professora Lívia fez um desabafo. "Me toca muito profundamente, por se tratar de uma violência contra a infância. Quero destacar a coragem dessas mulheres que conseguiram fazer as denúncias de abusos enquanto participavam do coral. Isso precisa nos dar indignação, uma pessoa que ocupava de seu lugar de autoridade para cometer esses crimes", declarou.
A vereadora Júlia Casamasso também falou sobre o assunto. "Uma história de abusos que durou décadas e precisamos nos perguntar como uma instituição tão conhecida, tão admirada conseguiu chegar até aqui carregando tantos casos de violência? Qual o silêncio tornou isso possível? Práticas de abusos morais, sexuais e intimidação que parecem ter sido normalizadas ao longo dos anos. Quantas vezes essas meninas tiveram suas palavras colocadas em dúvida, enquanto um homem poderoso seguiu protegido por sua reputação? É justamente por isso, exige mais que indignação. Exige compromisso, para que não voltem a acontecer. Que todas as instituições tenham mecanismos de proteção, acolhimento e de denúncia. Toda minha solidariedade às vítimas", declarou Júlia em um vídeo nas redes sociais.
Relatos de ex-Meninas Cantoras
O Diário conversou com duas ex-integrantes do grupo que fazem parte da reportagem publicada pela Revista Piauí.
Karol Rodrigues é produtora de eventos e ex-integrante do Coral, e deu seu depoimento para a reportagem de Cristina Fibe, publicada na Revista Piauí. Ao conversar com o Diário, Karol esclareceu que os responsáveis não faziam ideia dos abusos e disse como se sente após a postagem da matéria. “O meu depoimento na matéria saiu anônimo porque eu queria poupar a minha família, que era muito participativa, lá no coral. Inclusive, meu avô chegou a patrocinar o coral. Então, eu achava que não ia fazer bem pra eles saberem que debaixo do nariz de todos eles isso aconteceu comigo, sabe? Então, era muito mais pra poupá-los. Mas eu sinto que hoje, no momento que eu joguei no grupo da minha família o link da matéria, e eu disse que eu sabia que eles achavam que era outra coisa, mas que, na verdade, aquilo ali era a realidade, aí sim, parece de verdade, que no meu peito abriu um espaço, assim, eu estou respirando melhor, sabe? E, eu vejo as pessoas perguntando, cadê os pais dessas crianças? Não sabiam que elas estavam sofrendo abuso psicológico, sexual, moral, etc? Mas, assim, não tem como a gente culpar nossos pais. Porque a coisa tinha um modus operandi parecida com uma lavagem cerebral, para que as informações não saíssem dali. Ele, inclusive, usava pra gente o termo que ali era um óvni. De que o que acontecia ali dentro tinha que ficar ali dentro, porque as pessoas de fora não entenderiam”, relatou.
Karol explica que os assédios dentro da instituição eram constantes. “Tudo que eu sofri ali dentro, de julgamento, de bullying, o assédio sexual, o assédio moral, enfim, sendo ridicularizada. Ainda assim, eu posso te afirmar que muito mais da minha personalidade hoje, com 40 anos, foi moldada por ele do que pelos meus pais. Eu sinto na minha vida, que existe tanta coisa que eu perco ou que eu deixo de ter, simplesmente por coisas que foram instaladas no meu HD ali dentro, sabe? O abuso moral e psicológico era coletivo. Ele tinha uma coisa de botar uma contra a outra. Só que éramos crianças. Isso é muito surreal de se pensar. Na realidade, era uma competição pela atenção dele. Então, um dia ele chegava a fim de dar mais ideia pra uma. E aí, a outra ficava possuída, porque ele cutucava essa outra na presença de uma. Era um jogo psicológico todos os dias”, relembra.
A ex-integrante do Coral ainda diz que espera que a matéria motive outras denúncias. “Eu espero que, com esse nosso primeiro passo, venham muitas outras. Não só para corroborar com a nossa denúncia, mas que dê coragem para elas fazerem o mesmo”.
Outra ex-coralista que deu seu depoimento para a Revista Piauí, e também falou com o Diário, é a jornalista Carla Magno. Ela relata como se sentiu após a publicação. “A repercussão da reportagem para mim é um alívio. Ver que isso se tornou público dessa forma e ver tantas meninas, que durante anos e anos ficaram em silêncio com seus abusos, podendo sentir um pouquinho de alívio também. Eu espero que isso repercuta mais, e atinja meninas e mulheres para incentivá-las a denunciar, ficarem atentas para não se submeterem a homens em posições de poder. É bom ajudar a expor essa pessoa que, durante 40 anos, acumulou uma bagagem quilométrica de abusos diversos, incluindo abusos sexuais”.
A jornalista também cita que o apoio de outras ex-integrantes foi importante. “Foi um suporte para a gente se fortalecer, ter coragem, de falar, de expor, se identificar e perceber que outras meninas estavam vivendo a mesma coisa que a gente. Por isso, é muito bom ter esse grupo tão forte, que cresce e que fica mais unido”, comemora.
Maestro nega acusações de abuso sexual
Procurado pelo Diário, o maestro Marco Aurélio Xavier nega as acusações de abuso sexual por parte de algumas integrantes do Coral das Meninas Cantoras de Petrópolis. “Eu nego veementemente que tenha abusado de qualquer uma das 1.372 meninas que passaram pelo coral nos 40 anos sob minha regência. Admito, sim, que era rigoroso com a disciplina, talvez, mais do que deveria. Atraso? Não permitia. Falta? Muito menos. Cabelo pintado de roxo? Não subia ao palco. Mas, abuso sexual? Jamais!”, afirmou o maestro.
Ele relembra também que foi fundador do Coral da UCP, dos Pequenos Cantores da UCP e do Coral de Petrópolis. “Eu trabalhei não só com mais de mil e trezentas meninas, eu regi adultos e outras crianças e nunca fui acusado desse tipo de abuso. Me surpreende, agora, mais de uma década depois que o Coral das Meninas acabou, surgir esse tipo de acusação. Não me crucifiquem, eu não mereço isso”, lamenta.
Ainda segundo o maestro, o Coral das Meninas Cantoras de Petrópolis ganhou grande destaque na mídia, gravou 3 CD’s, gravou com vários artistas renomados e participou de inúmeros programas de TV. “Quando participávamos destas apresentações, eu realmente falava para elas não “tietarem” os artistas, já que elas eram tão artistas quanto a Xuxa, o Roberto Carlos, e qualquer outro. Eu exigia disciplina, no ônibus, no palco, em qualquer lugar, e isso as incomodava”, relata.
Sobre o que vai fazer a respeito das acusações, se vai se defender de alguma forma, o maestro disse: “não vou fazer nada”, concluiu.
Veja também: