- Ataualpa A. P. Filho - professor
Deve-se nutrir um afeto profundo pelo solo que absorve o nosso suor e nossas lágrimas. Quem ama protege. O zelo pode também refletir o carinho proveniente do amor.
Sei que o conceito de Pátria anda desgastado atualmente por questões políticas. Mas, em razão do tema abordado em nossa prosa de hoje, vale relembrar os versos do poema “A Pátria” de Olavo Bilac:
“Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!/ Criança! não verás nenhum país como este!/ Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!/ A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,/ É um seio de mãe a transbordar carinhos./ Vê que vida há no chão! vê que vida há nos ninhos,/ Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!/ Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!/ Vê que grande extensão de matas, onde impera/ Fecunda e luminosa, a eterna primavera!”
Não há como calar diante do calor que abrasa o peito pela consciência do bem comum. Há uma forma de servir a Pátria protegendo-a do processo especulativo que vive sob o comando do vil metal. Por isso é necessária a vigilância na preservação de valores em defesa da manutenção do patrimônio cultural de quem nela habita. Não há como desvincular o conceito de Pátria do bem-estar do povo. Respeita-se a Pátria quando se respeita a cultura de quem nela vive.
Na terça-feira passada (25/11), o Conselho Consultivo do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) aprovou a rerratificação do tombamento da “Avenida Koeler: Conjunto Urbano Paisagístico” que agora será intitulado como: “Conjunto Urbano-Paisagístico e Unidades Fabris de Petrópolis”.
Essa “rerratificação” estabeleceu algumas mudanças, uma vez que ampliou e atualizou o reconhecimento dos valores históricos e paisagísticos de Petrópolis. Houve um aumento da área tombada, ou seja, ampliou-se a área de preservação. A Conselheira Relatora do processo, Tânia Nunes Galvão Verri, disse:
“Na comparação entre a situação atual e a proposta apresentada, a ampliação da área tombada consolida a relevância do trecho que já estava sob a jurisdição do Iphan, deixando de ser mera área de entorno para se tornar o próprio valor preservado. Além disso, é importante destacar que nenhum imóvel tombado foi suprimido nesta revisão”.
Dentro dessa nova proposta, encontram-se as encostas cobertas por Mata Atlântica, que agora serão reconhecidas como parte essencial do Patrimônio Cultural de Petrópolis. Nessa mudança, também estão incluídos os componentes do Complexo Fabril de Cascatinha, como a chaminé, os pavilhões fabris, a estação ferroviária, a usina e as pontes históricas. A Vila Operária da antiga Fábrica de Tecidos Cometa também teve o tombamento ampliado, a rua Coronel Batista passou a ser integrada, além da Rua Padre Feijó. As casas Djanira, Ana Mayworn e a Rua Cardoso Fontes foram redefinidas, com limites de preservação mais precisos.
Outro ponto que merece destaque nessa “rerratificação” está relacionado à permanência dos trechos dos rios no tombamento. Portanto, não se trata de tombamento de elementos isolados, mas do “Conjunto Urbano-Paisagísticos e Unidades Fabris de Petrópolis”. O texto com as mudanças aprovadas será levado ao Ministério da Cultura para ser homologado.
O olhar sobre o passado exige um posicionamento mais efetivo e afetivo sobre o presente. O progresso é uma consequência da evolução da civilização humana, ou seja, é inevitável. Contudo, é preciso que as mudanças ocorram racionalmente com critérios capazes de contemplar o bem-estar da sociedade. Por isso que até uma lixeira pública danificada prejudica uma coletividade. Uma calçada desnivelada, sem acessibilidade para a mobilidade de cadeirantes, transforma-se em obstáculo para quem quer conduzir a vida com autonomia, sem precisar da ajuda de outras pessoas.
O acúmulo de lixo nas ruas fere o Código de Postura. Não basta cobrar dos gestores públicos o cumprimento de tal Código, cada cidadão também precisa se sentir responsável pela preservação e manutenção dos bens públicos. Não é necessário muito esforço para constatar que os itens básicos do Código de Postura não são obedecidos.
Tenho um carinho enorme por Petrópolis. Neste solo, tenho lágrima e suor plantados. Tenho vínculos afetivos que ampliam a minha família. Aqui tenho irmãs e irmãos adotivos que me fazem sentir em casa. Portanto, sinto-me credenciado para falar da necessidade de uma mobilização mais ampla para colocar em discussão propostas que possam contribuir para o desenvolvimento urbano sem danificar o nosso Patrimônio Histórico.
Precisamos iniciar pelo básico: manter a cidade limpa, evitar o crescimento demográfico desordenado, pensar na mobilidade urbana para evitar o tempo perdido em retenções de trânsito. Precisamos de obras de contenção de encostas para evitar deslizamentos. A limpeza dos rios, a preservação das nossas reservas naturais, em suma, temos que começar pelo básico.
O passado que aqui respiramos é fonte de renda. O turismo, em Petrópolis, movimenta a economia, cria emprego e divulga o nosso Município. A Cidade Imperial precisa preservar o seu Patrimônio Histórico. Os passos da história do nosso País estão aqui registrados, tanto na Monarquia, quanto na República.
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