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  Colunistas
Ronaldo Fiani
COLUNISTA

 

A Cidade Pode Ser Mais ou Menos, Só Depende de Si Mesma

Serrana é uma pequena cidade no norte do Estado de São Paulo, com pouco mais de 45 mil habitantes, vizinha de Ribeirão Preto. Para o leitor ter uma ideia de quão pequena é a cidade, Petrópolis tem mais de 300 mil habitantes, e alguns bairros como Cascatinha têm mais habitantes do que Serrana. Contudo, a pequena Serrana vem ilustrando algo que tenho insistido nesta coluna: que as cidades podem fazer muito pelo seu desenvolvimento, se tiverem capacidade de gestão e, principalmente, visão política para isto.

Escolhida pelo Instituto Butantan para o Projeto S, que visa a estudar a eficácia da vacinação contra a Covid e que resultou na vacinação de nada menos do que 56% de sua população até o início de abril, Serrana foi procurada pelo governo de Israel para elaborar acordos de cooperação na troca de informações sobre a pandemia, assim como inovação e gestão de água (ver: https://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/2021/04/07/serrana-e-israel-estudam-parceria-para-produzir-conhecimento-sobre-vacinacao-em-massa-contra-a-covid-19.ghtml).

É importante notar que o pioneirismo de Serrana ofereceu a chance de a cidade ter acesso a recursos que, dado o seu tamanho, dificilmente ingressariam na cidade, especialmente com a proximidade de Ribeirão Preto, uma cidade bem maior e mais desenvolvida economicamente, que funciona como polo de atração para a maioria dos recursos econômicos na região. A escolha do Instituto Butantan foi decisiva para a abertura desta nova possibilidade, mas a administração de Serrana também soube compreender a oportunidade e estabelecer vínculos de cooperação com o Instituto, que agora podem vir a frutificar de maneira importante para o desenvolvimento da cidade.

O caso de Serrana ilustra algo que tenho afirmado repetidas vezes nesta coluna: há muito que as cidades podem fazer para promover seu desenvolvimento, se tiverem capacidade de gestão e, principalmente, se tiverem visão política para identificar as oportunidades que existem a cada momento. Esta visão política é justamente o recurso mais escasso nas prefeituras, muito em função de uma atitude acomodada das gestões municipais, que resulta da crença consolidada ao longo dos anos de que desenvolvimento é problema do governo federal. Obviamente ainda é necessário que as cidades se articulem com o governo federal e os governos estaduais, como ilustra a articulação entre Serrana e o Instituto Butantan, mas a iniciativa vai ter de partir cada vez mais das cidades.

Isto é fruto de uma situação que vem mudando cada vez mais aceleradamente. O desenvolvimento das tecnologias digitais abriu espaço para empresas que distribuem softwares e produtos para o mundo todo: não são mais necessárias grandes fábricas situadas em cidades com grande população e, portanto, com grande volume de força de trabalho. Estas novas tecnologias, embora não exijam um grande volume de força de trabalho, demandam sim uma força de trabalho qualificada, incluindo especialistas de alto nível, com doutorado na área técnica e científica. Desta forma, os centros urbanos que estão na vanguarda do desenvolvimento são cidades como Palo Alto nos Estados Unidos com 66 mil habitantes e Cambridge na Grã-Bretanha com 123,9 mil habitantes, pois possuem uma força de trabalho extremamente sofisticada, com profissionais de altíssimo nível.

Petrópolis já possui uma base tecnológica para se tornar um polo tecno-científico de vanguarda: temos universidades, um polo de empresas de tecnologia e um centro de pesquisa de excelência, o Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), com o Santos Dumont, o maior supercomputador da América Latina e que ajudou a sequenciar variantes do Coronavírus. Também temos o Fundo Municipal de Inovação (FMI), assim como hospitais e uma faculdade de medicina de excelência, que podem se integrar em um complexo de pesquisa e produção de tecnologia em saúde.

Mas muito ainda tem de ser feito. Não há um doutorado strictu sensu em ciência, engenharia ou tecnologia na cidade, justamente o tipo de doutorado que produz conhecimento de ponta. Ou seja, a estrutura básica existe, mas ainda falta construir os andares superiores do edifício. O momento, ao contrário do que poderia parecer, é favorável: as mudanças nas empresas produzidas pela pandemia favorecem o trabalho remoto, o que facilita a atração de profissionais de excelência para a cidade.

Petrópolis pode ser mais, ou menos. Só depende de si mesma.



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