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  Colunistas
Ronaldo Fiani
COLUNISTA

 É Uma Má Ideia Aumentar os Juros Agora

Como mencionei em artigo anterior (Os Juros, a Pandemia e a Inflação), publicado aqui no Diário de Petrópolis em 28 de março, as previsões para este ano apontam para um alta contínua da SELIC, projetando uma taxa de 4,5% ao final do ano. O Banco Central (BC) elevou novamente em 5 de maio a taxa básica de juros de 2,75% para 3,5% ao ano e antecipou nova alta de 0,75 ponto percentual na próxima reunião do Comitê de Política Monetária, o Copom. Como é sabido, a Selic estabelece o piso das taxas de juros no Brasil, ou seja, quando ela sobe, todas as taxas sobem.

Está se confirmando, desta forma, a tendência altista dos juros, embora o Banco Central venha afirmando que pretende manter “algum estímulo” à economia durante o processo de recuperação. Traduzindo: o Banco Central pretende elevar a taxa de juros, mas ainda mantê-la em alguma medida “baixa”, para estimular e economia. Juros muito elevados inibem o investimento, o principal fator de crescimento da produção e do emprego. Mas o que significa manter a taxa de juros em alguma medida baixa? Mais especificamente, baixa em relação a quê?

Ao contrário do que muitas vezes os leigos em economia supõem, não há uma única teoria econômica. Há diversas teorias competindo entre si, o que provoca divergências entre os economistas. A corrente teórica a que pertencem os economistas do Banco Central argumenta que há uma “taxa natural de juros”. A taxa de juros natural é aquela que mantém a economia estável no nível de pleno emprego, isto é, na situação em que ninguém que deseja trabalhar e está disposto até a aceitar uma redução na sua remuneração para conseguir um emprego permanece desempregado.
Se a taxa de juros for igual à taxa natural, não há inflação. Vejamos o porquê.

Se a taxa de juros da economia for menor do que a taxa natural, fica barato tomar dinheiro emprestado. Com isto o investimento cresce e o emprego se expande para além do pleno emprego. As empresas começam a disputar trabalhadores e os salários sobem, resultando em inflação. Como a inflação neste caso resulta do excesso de investimentos, ou seja, das empresas comprando máquinas e equipamentos e construindo novas instalações em grande volume porque o investimento está barato, os economistas chamam a esta inflação uma inflação de demanda.
Já se a taxa de juros for maior do que a taxa natural, o investimento fica muito caro. Com isto o investimento diminui e o emprego se contrai, ficando abaixo do pleno emprego. Como há trabalhadores desempregados procurando emprego, os salários caem, resultando em queda dos preços (porque os custos com a mão de obra estão caindo). Trata-se de uma deflação (uma redução no nível de preços), provocada por falta de investimentos e, assim, por falta de demanda por máquinas, equipamentos e novas instalações.

O diagnóstico do Banco Central parece simples. Dada a perspectiva do mercado financeiro de retomada da atividade econômica, com uma taxa de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto, a soma dos bens e serviços produzidos na economia em um ano) prevista de 5% para este ano, e uma taxa de inflação projetada para 2021 de 5,31%, acima da meta oficial de 3,75% (admite-se uma margem de tolerância de 1,5% para mais ou para menos) seria necessário elevar a taxa de juros para reduzir o nível de atividade econômica, e assim diminuir a pressão sobre os preços e combater a inflação de demanda.

Mas nós não estamos vivendo uma inflação de demanda. Inflação de demanda somente surge quando a economia é pressionada a empregar e produzir mais do os níveis de pleno emprego, o que não pode ser considerada a situação atual, em que temos 14 milhões de desempregados. Estamos vivendo uma inflação de custos, ou seja, uma inflação resultante do aumento do preço dos combustíveis e da falta de produtos no mercado interno por conta das restrições da pandemia e das exportações para China. A perspectiva é de agravamento da pressão inflacionárias dos custos, por conta da crise hídrica que se avizinha e do aumento das tarifas de energia.

Neste quadro, o aumento da taxa de juros vai dificultar a retomada das atividades nos setores mais frágeis financeiramente, especialmente o pequeno comércio e o setor de serviços pouco sofisticados, que são ambos grandes empregadores. A elevação da taxa SELIC pelo Banco Central não vai reduzir a inflação (que, repito, é inflação de custos e não de demanda): vai apenas dificultar a retomada do emprego.

É uma má ideia.



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