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  Colunistas
Ronaldo Fiani
COLUNISTA

 

Vivendo no Mundo da Complexidade

Miséria é miséria em qualquer canto

Riquezas são diferentes

“Miséria”, Titãs

 

Uma realidade marcante neste início de século é o fato de que poucos países e cidades avançam economicamente no século XXI, enquanto o restante retrocede para o século XIX. Os países e cidades que avançam no século XXI exibem uma economia muito especializada e muito diversificada. O restante, porém, sofre com níveis baixos de renda, desemprego e subemprego elevados, apresentando economias com empresas (e trabalhadores) com baixa especialização e diversificação. Infelizmente, este vem sendo o caso do Brasil, e das cidades brasileiras. A razão disto é a complexidade que caracteriza a economia moderna. Por isto, precisamos conhecer um pouco melhor este conceito de complexidade, que possui raízes antigas no pensamento econômico.

O conceito de complexidade possui suas raízes na principal obra de Adam Smith (1723-1790), Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações, publicada pela primeira vez em 1776. Adam Smith é considerado o fundador da teoria econômica. Naquela obra, entre outras ideias brilhantes, Smith chamou a atenção para o papel da divisão do trabalho, isto é, a divisão de tarefas que resulta na especialização para o aumento da produtividade.

Adam Smith utilizou como exemplo o famoso caso de uma fábrica de alfinetes do século XVIII, observando que a divisão das tarefas na produção dos alfinetes (cortar o arame, afinar a ponta, colocar a cabeça no alfinete etc., em um total de 18 tarefas) entre os seus dez operários resultava em uma produção diária em torno de 4.800 alfinetes por operário. Já se um operário tivesse que realizar todas as tarefas sozinho, em vez de se concentrar em uma única etapa, ele não conseguiria produzir sequer um único alfinete em um dia de trabalho. Deste modo, a divisão de tarefas aumentava extraordinariamente a produtividade de cada trabalhador.

Adam Smith percebeu, ainda no século XVIII, um princípio que vem ganhando cada vez maior importância desde então: quanto maior a especialização, maior a produtividade. Este princípio se generaliza para todas as atividades econômicas, não apenas no processo produtivo que acontece dentro de uma empresa, mas, também entre elas: quanto mais especializada a empresa, maior sua produtividade.

A razão disto é que ao especializar tarefas, reduz-se a perda de tempo que sempre acontece na passagem entre uma tarefa e outra, aumenta-se a habilidade, destreza e conhecimento do trabalhador (que se concentra em tarefas específicas em vez de se dispersas por várias tarefas diferentes) e facilita-se a introdução de máquinas (é sempre mais fácil elaborar uma máquina para realizar um conjunto limitados de tarefas do que para muitas tarefas diferentes).

A especialização aumenta a produtividade e, em razão disto, aumentam os lucros (porque a produção aumenta em relação aos custos). A especialização também eleva salários, porque a oferta de trabalhadores especializados é sempre mais reduzida do que de trabalhadores sem especialização. O aumento dos lucros e dos salários aumenta a arrecadação de impostos, e com isto a qualidade do serviço público melhora. Todos ganham.

A especialização também gera uma economia mais diversificada: com as empresas se especializando, elas se concentram em uma determinada etapa do processo produtivo de um bem ou serviço particular, e assim todo o conjunto da economia se diversifica. Nas sociedades mais pobres, ao contrário, as empresas são pouco especializadas e se concentram nos setores que envolvem as atividades mais simples. A economia, portanto, é pouco especializada e diversificada. Em consequência, a produtividade é pequena, os lucros e os salários são baixos e a arrecadação é escassa.

Uma vez que se inicie o processo de especialização e diversificação, ele não cessa mais. Cada empresa que se especializa descobre novos nichos de mercado e novas especialidades, introduzindo inovações que vão cada vez mais aumentando a especialização e a diversificação da economia. Basta considerar que um único produto, o carro moderno é composto por algo em torno de 30 mil peças, que vão desde parafusos nas portas e chapas de aço a programas informatizados embarcados nos circuitos integrados, que controlam a injeção de combustível, o funcionamento da suspensão, localizam o carro no GPS etc.

Um carro é algo mais complexo do que a soma de suas partes porque não basta reunir as suas 30 mil partes para termos um carro: é preciso saber integrá-las. Este é o conceito de complexidade, que vai de um carro até a economia como um todo, pois o funcionamento de uma economia diversificada e especializada de forma integrada e coerente é algo que vai além da soma de suas partes. Esta complexidade começa com a crescente especialização e diversificação da economia.

Daí os versos da música Miséria dos Titãs, que servem de epígrafe a este trabalho. Enquanto a riqueza econômica é diversificada e especializada, a pobreza tende a ser pouco diversificada, sem nenhuma especialização. Viver no século XXI é estimular a especialização, formando cientistas, engenheiros, e estimulando empresas especializadas, em particular aquelas voltadas para tecnologia de ponta. Quem não o fizer, não apenas não vai se manter onde está, como vai retroceder ao século XIX. Com uma população urbana demandando empregos e serviços públicos, as consequências desse retrocesso serão dramáticas.



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