Edição anterior (3292):
domingo, 12 de novembro de 2023
Ed. 3292:

Capa

Compartilhe:

Voltar:

HOJE

Edição anterior (3292): domingo, 12 de novembro de 2023

Ed.3292:

Compartilhe:

Voltar:


  Colunistas
Ronaldo Fiani
COLUNISTA

 A Financeirização das Commodities e seus Riscos para a Economia Brasileira

Nos dois últimos artigos discuti a importância da liquidez dos títulos do tesouro dos Estados Unidos para o funcionamento do sistema financeiro internacional. Este sistema alcançou uma expansão inédita desde os anos 1990, expansão esta que se caracterizou, entre outros aspectos importantes, por transformar em ativos financeiros recursos que antes não tinham esta caraterística, o que incluiu as commodities (bens primários exportados, tais como minério de ferro, petróleo, soja, carne, milho, trigo etc.), das quais dependem as exportações de economias de países menos desenvolvidos, como é o caso da economia do Brasil. Há riscos neste processo? Para responder a esta pergunta é preciso conhecer um pouco como funciona o mercado de contratos futuros de commodities.
 
Um contrato futuro é um compromisso de vender ou comprar uma determinada quantidade de uma commodity por um determinado valor, em uma determinada data futura. Qual a vantagem deste tipo de contrato? Por exemplo, um exportador internacional de soja pode estar se protegendo contra reduções imprevistas de preços: contratando uma parte da sua demanda de soja antecipadamente, ele já sabe quanto irá receber, o que reduz o seu risco de que o preço na data futura em que firmou a entrega (isto é, o preço corrente, ou preço spot naquela data) tenha se reduzido de forma imprevista. Da mesma forma, um comprador de soja estaria se protegendo contra um aumento imprevisto no preço spot em uma data futura, ao fixar o preço antecipadamente.
 
Contudo, se o preço spot for menor no vencimento do contrato do que o preço contratado, o comprador realiza uma perda; da mesma forma, se o preço spot for maior no vencimento do contrato do que o preço contratado, o exportador realiza uma perda. Por esta razão, contratos futuros deveriam cobrir apenas uma parte das necessidades de compradores e vendedores, como se fossem uma espécie de seguro para diminuir os riscos de variações não antecipadas de preços: vendendo ou comprando uma parcela por meio de um contrato futuro, compensam-se as perdas por variações imprevistas de preços, ainda que também seja possível que sejam reduzidos os ganhos.
 
A novidade é que uma série de investidores internacionais, como fundos de pensão e de hedge passaram a adquirir contratos futuros de commodities, mesmo que não tenham a mercadoria para entregar, ou não queiram receber o produto. Isto porque é comum vender um contrato futuro de uma commodity, o que envolve o compromisso de entregar uma determinada quantidade da commodity em uma data futura por determinado preço, e depois comprar o mesmo contrato antes da data de liquidação, uma ação que, na prática, cancela o compromisso da entrega da commodity. Isto se chama venda a descoberto, porque o investidor vende algo (no caso, uma commodity), que na verdade ele não possui.
 
Quais são as vantagens e os riscos da venda a descoberto de uma commodity? Esta é uma operação lucrativa se o preço da commodity tiver se reduzido entre a venda do contrato e a sua compra: você paga na compra do contrato menos do que recebeu quando o vendeu, sem a obrigação de possuir um estoque da commodity para vender. O problema é, obviamente, se o preço da commodity aumenta ao invés de diminuir: neste caso, quando comprar o mesmo contrato, o investidor vai realizar uma perda.
 
O risco desta operação tem aumentado porque, desde 2004, tem aumentado a correlação entre o mercado de ações e o mercado de commodities (ver Financialization of Commodity Markets Ten Years Later, de Wenjin Kang, Ke Tang e Ningli Wang, publicado no Journal of Commodity Markets (2023): 100313, disponível em https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S240585132300003X ). Isto significa que, quando uma crise afetar negativamente o mercado de ações dos países desenvolvidos, ela vai afetar da mesma forma o mercado de commodities.
 
Um efeito possível de uma crise seria, então, a possibilidade de que vários investidores internacionais não consigam comprar de volta os contratos que venderam anteriormente, pois seus ativos terão se desvalorizado com a crise, gerando inadimplência no mercado de contratos futuros. Esta inadimplência pode afetar o funcionamento destes mercados, aumentando os riscos de compradores e vendedores de commodities, assim reduzindo as transações com commodities e, desta forma, seus preços.
 
Por esta razão, mesmo países produtores de commodities como o Brasil precisam acompanhar os problemas de liquidez dos títulos públicos dos Estados Unidos com cuidado.
 


Edição anterior (3292):
domingo, 12 de novembro de 2023
Ed. 3292:

Capa

Compartilhe:

Voltar:

HOJE

Edição anterior (3292): domingo, 12 de novembro de 2023

Ed.3292:

Compartilhe:

Voltar: