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Ronaldo Fiani
COLUNISTA

 

Por Que a Revolução Digital em Curso É Diferente de Tudo o que Aconteceu Antes? Ou: Adam Smith e a Inteligência Artificial
 

Ronaldo Fiani

 

O leitor mais interessado em tecnologia e economia com certeza já se deparou com artigos e matérias abordando a revolução digital em curso, que foi batizada na Alemanha como “indústria 4.0”, termo que se popularizou, e que faz uma referência ao início de uma nova forma de indústria. Mas a revolução digital seria realmente uma revolução? Sem dúvida, pois a digitalização da economia vai alterar o princípio que vem comandando o processo de trabalho, desde o surgimento da indústria moderna no final do século XVIII até agora.
O princípio que vem comandando o processo de trabalho, desde o surgimento da indústria moderna foi analisado pelo pensador escocês Adam Smith (1723-1790) (considerado o fundador da Economia como campo de conhecimento especializado), ainda em 1776, data de publicação de seu famoso livro Uma Investigação sobre a Natureza e a Origem da Riqueza das Nações (conhecido mais simplesmente como A Riqueza das Nações). Naquela obra, Adam Smith usou o célebre exemplo da fábrica de alfinetes para ilustrar o princípio que vem orientando o processo de trabalho desde então: dividir tarefas, e em seguida substituir o trabalho humano por máquinas.
Ao analisar a produção de alfinetes, Smith percebeu que a divisão das tarefas (no jargão econômico, a divisão do trabalho) entre os operários da fábrica de alfinetes, em que um deles cortava o arame, o outro afiava a ponta, um terceiro colocava a cabeça do alfinete etc., aumentava muito a produtividade em relação à situação em que apenas um operário fazia todas as tarefas, ou a maior parte delas. Assim, apesar de a fábrica empregar um número grande de trabalhadores quando comparada com a produção artesanal, o custo da produção na indústria era menor por pacote de alfinetes com a divisão de tarefas.
Adam Smith identificou então as três causas do aumento de produtividade provocado pela divisão do trabalho. A primeira delas é que quando um trabalhador se concentra em poucas tarefas simples, sua destreza aumenta: ao se limitar apenas a soldar a cabeça do alfinete, por exemplo, a repetição eleva a habilidade do operário, que faz isto cada vez mais rápido. A segunda causa é a redução da perda de tempo na passagem de uma tarefa para a tarefa seguinte: executando poucas tarefas, o trabalho é pouco interrompido por mudanças de tarefa.
Por último, e mais importante para o nosso tema, quando a tarefa é simplificada, fica mais fácil substituir o trabalhador por uma máquina: é difícil construir uma máquina que corte o arame, faça a ponta e coloque a cabeça do alfinete, mas é fácil elaborar uma máquina que corte o arame ininterruptamente, enviando os pedaços cortados em um tamanho padronizado para a próxima etapa. Este é o princípio que vem comandando o processo de trabalho desde o início da indústria moderna: divida as tarefas de forma a simplificá-las, e substitua o trabalho na maior parte delas pela operação de máquinas. Isto vale tanto para o tear Cartwright movido por roda d’água, patenteado em 1785, quanto para os atuais robôs nas fábricas de automóveis.
Este princípio de divisão do trabalho visando à substituição por máquinas vinha enfrentando uma limitação importante, até agora: ele se aplicava majoritariamente ao trabalho manual. O trabalho intelectual vinha se mantendo, em grande medida, a salvo deste processo de substituição por máquinas, porque o trabalho intelectual é, em geral, muito complexo. Apenas onde ele pode ser reduzido a tarefas simples, como no atendimento bancário, a automação vem tendo sucesso.
Contudo, a nova revolução digital vai alterar este quadro, radicalmente. O uso de tecnologias digitais associadas à inteligência artificial inverte o princípio de divisão do de trabalho que foi percebido por Adam Smith, e que vinha vigorando até o presente: ao invés de simplificar o trabalho, para que as máquinas possam executá-lo, agora as máquinas serão capacitadas a realizar tarefas complexas, inclusive de natureza intelectual, que envolvem avaliação de informações, julgamento de alternativas e tomada de decisão.
Isto significa que profissões mais qualificadas, que exercem trabalho intelectual e que antes estavam a salvo da mecanização e automação, estarão agora sujeitas ao chamado “desemprego tecnológico”, isto é, o desemprego que resulta da introdução de novas tecnologias. Algumas profissões já têm sido apontadas como possíveis vítimas deste tipo de desemprego na literatura especializada, como médicos que realizam diagnósticos de exames de imagem, jornalistas, professores de idiomas, auditores etc.
As consequências econômicas, sociais e políticas serão extensas, profundas e desestabilizadoras.


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