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Saúde é ter recursos

- Mario Donato D’Angelo

Arquivo Pessoal
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Durante muito tempo, acreditou-se que saúde fosse apenas isso: a ausência de doença. Um corpo silencioso, sem sintomas, sem queixas, sem sinais de falha. A definição é confortável, mas insuficiente. Aos poucos, uma ideia mais sutil começa a ganhar espaço. Ser saudável não é apenas não estar doente. É ter recurso. Recurso para responder, adaptar-se, recuperar-se. Um organismo não se define pela perfeição, mas pela quantidade de possibilidades que carrega diante do imprevisto.

Há pessoas que vivem como se o chão fosse um acordo eterno. Caminham confiantes, atravessam a sala sem olhar, descem degraus como quem repete um gesto garantido desde a infância. Não pensam no corpo, e isso, de certo modo, é o maior elogio que se pode fazer a ele. O corpo que não chama atenção está em paz consigo mesmo.

O problema é que o mundo não assinou esse acordo.

Em algum momento, por distração, cansaço ou pura teimosia das coisas, o chão se desloca. Não muito. O suficiente. Um tapete que dobra, um degrau que falta, uma pressa desnecessária. E, nesse instante mínimo, tudo o que parecia sólido revela sua verdadeira natureza: provisória.

É nesse momento que aparece uma palavra pouco frequentada nas conversas elegantes: recurso.

Recurso não é o que se mostra. É o que se guarda.

Há quem pense que recurso é dinheiro. É uma forma respeitável de ver a questão, mas incompleta. Dinheiro resolve muitas coisas, inclusive algumas quedas mais caras, como as que terminam em hospital. Mas o recurso que me interessa aqui não se deposita em banco. Deposita-se no corpo.

E, curiosamente, começa a ser construído quando ninguém está olhando.

Um passo a mais, dado por hábito.

Uma escada subida sem reclamar.

Um equilíbrio improvisado ao calçar o sapato.

Nada disso parece importante. E não é, até ser.

O corpo, esse contador silencioso, registra tudo. Soma pequenas experiências, guarda respostas, arquiva soluções. Vai formando, sem alarde, uma espécie de poupança invisível. E, como toda poupança, ela só revela seu valor quando chega o momento de usá-la.


Imagine duas pessoas diante do mesmo tropeço. O evento é idêntico, democrático até. Mas o desfecho é outro assunto.

Uma perde o eixo e cai como quem é surpreendido pela própria existência. Outra oscila, hesita, reorganiza-se e segue, com um leve constrangimento e a dignidade preservada.

O que separa essas duas histórias não é a sorte. É o saldo.

Há um tipo de riqueza que não se vê, mas se manifesta no instante exato em que tudo ameaça falhar. Uma riqueza feita de força, de equilíbrio, de reflexos treinados, de confiança. Uma riqueza construída no anonimato dos dias comuns.

Há quem viva gastando mais do que tem.

O corpo também entra em déficit.

A vida moderna oferece um conforto curioso. Poupa movimentos, economiza esforço, simplifica gestos. E, nesse alívio constante, retira do corpo a oportunidade de construir recursos. O que parecia ganho transforma-se, discretamente, em perda.

Um dia, o corpo cobra.

Não com juros altos, como fazem os bancos, mas com um tipo de cobrança mais direta. Um tropeço que não se corrige. Uma queda que não se evita. Uma recuperação que demora mais do que deveria.

E, então, surge a pergunta que nunca foi feita antes: quanto havia guardado?

Há algo de profundamente elegante em quem se move bem. Não se trata de beleza no sentido comum, mas de economia de esforço, de precisão, de resposta adequada. É o corpo resolvendo problemas antes que eles se tornem problemas.

Um amigo meu, já com certa idade, certa experiência e algumas teimosias, escorregou na rua em um dia chuvoso. Escorregou bonito, como se diz. Mas não caiu. Fez um gesto estranho, meio dança, meio susto, e se salvou.

Quando perguntei como conseguiu, ele respondeu com a naturalidade dos sábios involuntários: andando.

Andando a vida inteira.

Não há segredo mais sofisticado do que esse. O corpo aprende fazendo. Aprende errando pouco e acertando sem perceber. Aprende a responder porque foi exposto a perguntas.

O contrário também é verdadeiro. O corpo que não é desafiado esquece. Esquece como reagir, como ajustar, como sustentar. Torna-se dependente de um mundo perfeitamente organizado, que, como já vimos, não existe.

Há ainda um elemento curioso nessa história. O medo.

O medo de cair, ao contrário do que se imagina, não protege. Ele endurece, retarda, confunde. O corpo com medo cai antes mesmo de tocar o chão. O gesto perde fluidez, a resposta chega tarde, o movimento se fragmenta.

O recurso, nesse caso, não é apenas físico. É também confiança.

Confiança no próprio corpo, construída ao longo do tempo, na repetição de gestos, na familiaridade com o movimento. É uma forma de conhecimento que mora nos músculos.

Alguns envelhecem em anos. Outros, em recursos. Nem sempre isso coincide.

No fundo, a vida é uma sucessão de pequenos desequilíbrios. Alguns visíveis, outros discretos. Cair faz parte. Literalmente e em todos os sentidos que a palavra permite.

A diferença não está em evitar a queda a qualquer custo. Está em ter como responder a ela.

E isso não se improvisa.

Constrói-se.

Silenciosamente, diariamente, sem aplauso.

Como toda boa poupança.

E, quando o chão, por alguma razão, decide não cumprir sua parte, é essa reserva invisível que entra em cena.

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