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Sendo

Ataualpa A. P. Filho - professor

Foto: Pixabay
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“Eu gosto de ver as pessoas sendo.” Inicio este texto com essa frase de uma personagem do livro “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres” de Clarice Lispector, porque também gosto de ver as pessoas “sendo”. Precisamos enxergar o “sendo” das pessoas, principalmente em ano eleitoral e quando traçam o próprio perfil nas redes sociais. Faces e farsas navegam pela Rede Mundial de Computadores (World Wide Web www).

O “ser” no presente contínuo expõe as coerências, as incoerências, as contradições entre o que se diz e o que se faz. A essência do “sendo” fica exposta nas atitudes, nas decisões tomadas.

A ética é o escudo da alma, do espírito. A autenticidade oferece repouso à consciência. Preservá-las de forma íntegra consiste em proteger-se, porque são alicerçadas na Verdade que liberta. E, a bem da Verdade, é preciso parar, reparar, questionar, analisar para discernir e evitar o comportamento manada.

Guiar-se pela própria consciência ajuda a diminuir as chances do arrependimento. O triste é saber que hoje “ser humano” tornou-se um ato subversivo. O amor, mesmo em tempo de cólera, de propagação do ódio, segue o Farol da Paz. Tenho falado que, por intermédio do amor, encontra-se a medida do ser. A grandeza de uma pessoa fica explícita nas ações que revelam o senso de humanidade. As atitudes espelham a face do bem e do mal.

A velha discussão entre aparência e essência ganha volume quando há a imposição de um padrão estético como parâmetro de beleza e virtude. Quando uma pessoa se deixa influenciar e obsessivamente se preocupa com a aparência a ponto de desencadear o Transtorno da Dismorfia Corporal (TDC), que consiste na insatisfação com o próprio corpo, é possível observar uma valorização maior da opinião dos outros em detrimento do próprio bem-estar, reflexo da queda da autoestima. Isso tem levado várias pessoas a efetuar cirurgias plásticas, apenas por vaidade, mesmo colocando em risco a qualidade de vida.

Outro ponto preocupante está vinculado ao uso e ao comércio ilegal do que se convencionou chamar de “caneta emagrecedora”, um medicamento injetável, usado no tratamento da obesidade e do sobrepeso. Muitos têm apelado para esse recurso sem orientação médica. Fato que tem preocupado as autoridades sanitárias do País, uma vez que medicamentos proibidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) têm sido vendidos clandestinamente e usados sem prescrições médicas.

Geralmente, quando as mentes estão impregnadas de influências tóxicas, começam a mentir, apresentam um perfil inconsistente, sem fundamentos na realidade. A projeção de uma imagem apenas para atender à demanda da moda, às vezes, evidencia alguns sintomas vinculados à fragilidade do caráter.

O procurar-se é plausível, porém o fugir de si é inviável. Só os equivocados é que se consideram perfeitos, julgam os outros a partir de si. Portanto, é válido lembrar: não podemos confundir paralogismo com sofisma. Este é fruto da desonestidade, uma vez que há a intenção de induzir ao erro, ludibriar; aquele consiste no raciocínio errôneo, porém não há má fé, não é produzido com a intencionalidade de enganar.

No atual contexto político, marcado por liquidação de instituições financeiras, por descontos ilegais no pagamento de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), diante de fake news e pós-verdades, precisamos ligar os detectores de mentiras e os “desconfiômetros”. Precisamos manter a coerência, a lógica e a ética bem iluminadas. Precisamos buscar as informações em fontes seguras. Precisamos ampliar as atenções sobre os fatos e as versões. Precisamos afiar o senso crítico. É necessário estar atento, porque, em muitos casos, há uma grande distância entre “o que houve e o que se ouve”...

Ainda acho que precisamos ficar atados no mastro da verdade para resistir às seduções, às propostas levianas de conteúdo demagógico que proliferam em período eleitoral. É necessário fortalecer a musculatura da alma para resistir às tentações, para não perder a serenidade diante de grotescas farsas que tentam tapear a boa-fé do povo.

Hoje a política da enganação fundamentada em falsas verdades dissemina boatos para esconder os fatos.

Reafirmo: precisamos enxergar o “sendo” das pessoas para evitar as decepções. “Ver as pessoas sendo” nos permite avaliar, com mais segurança, as coerências, as incoerências, as contradições. O fortalecimento da musculatura da alma nos leva a enxergar melhor sem perder a ternura.

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