Mauro Peralta - médico e ex-vereador
Na quinta-feira, dia 1º de julho, o petropolitano da Laginha José Carlos Medeiros Nunes, o inesquecível Padre Quinha, completaria 70 anos de idade, caso Deus não o tivesse chamado para Seu convívio há 13 anos. Durante a missa em sua memória, ao ouvir as palavras emocionadas de seu irmão João Henrique, pude constatar que a obra de acolhimento criada por Quinha, a Oficina de Jesus, continua cumprindo sua missão de acolher, tratar e, muitas vezes, recuperar brasileiros que necessitam de ajuda material, espiritual e emocional.
Atualmente, dezesseis pessoas estão acolhidas no sítio do Brejal, lutando diariamente para manter a sobriedade e vencer a dependência de substâncias que destroem vidas, famílias e sonhos. Ali, encontram apoio, acolhimento, disciplina e, sobretudo, esperança.
Padre Quinha sonhava em ser médico e, de certa forma, realizou esse sonho. Tornou-se médico da alma e do coração de milhares de petropolitanos. Mesmo sem ter pronunciado o juramento de Hipócrates, estava sempre disposto a atender qualquer pessoa, em qualquer hora e em qualquer dia, fosse ela rica ou pobre, conhecida ou anônima, até mesmo um morador de rua esquecido pela sociedade.
Dedicou sua vida principalmente aos excluídos. Visitava hospitais levando conforto aos enfermos e suas famílias nos momentos de maior sofrimento, apesar da fragilidade de seu próprio coração. Na Pastoral Carcerária, levava esperança aos desesperançados. Celebrava casamentos de pobres e ricos com a mesma alegria e acolhia a todos sem distinção de etnia, religião ou condição social. Era, acima de tudo, um homem que enxergava a dignidade humana onde muitos já não conseguiam enxergar.
A Oficina de Jesus nasceu em 1997, quando Padre Quinha sentiu o chamado de Deus para ajudar vítimas da dependência química. Naquele ano, promoveu um encontro de cinco dias com setenta dependentes. A experiência deu origem a reuniões semanais de orientação e apoio em sua paróquia de Corrêas. Dessa iniciativa surgiram o Sítio Nossa Senhora do Sorriso e, posteriormente, o atual trabalho desenvolvido no sítio do Brejal, no distrito da Posse.
Ali, o tratamento baseia-se na combinação entre trabalho, oração e acompanhamento psicológico, espiritual e social, durante um período médio de seis meses de internação. Ao longo de mais de vinte e seis anos de atuação, centenas de vidas foram transformadas. Aos que afirmam que trabalhar com dependentes químicos é apenas “enxugar gelo”, devido às frequentes recaídas, respondo com as palavras do próprio Padre Quinha: “Mesmo que apenas um seja efetivamente recuperado, já ficarei feliz, pois a vida humana não tem preço”.
A grande quantidade de moradores de rua que hoje vemos pelas ruas do Centro Histórico de Petrópolis evidencia a falta de iniciativas efetivas e aumenta ainda mais a saudade que sentimos desse extraordinário sacerdote. Passados treze anos de sua partida, as doações diminuíram e a obra enfrenta dificuldades para manter suas atividades. Quem puder colaborar com a Oficina de Jesus pode entrar em contato com João Henrique ou pelo telefone (24) 98855-7833. Toda ajuda é importante para que esse trabalho continue salvando vidas.
Para concluir, recordo uma história verdadeira, contada por Dom Gregório. Em certa ocasião, durante uma reunião de todos os padres de Petrópolis, Padre Quinha chegou atrasado e tentou justificar o motivo. O então bispo Dom Filippo Santoro interrompeu-o e disse: “Aqui o único que pode chegar atrasado é você, porque tenho absoluta certeza de que estava atendendo e consolando alguém, praticando a caridade que Jesus nos ensinou.”
Tomando emprestadas as palavras do filósofo romano Sêneca: “Abraçar o essencial nos liberta das garras do excesso e da preocupação. Ao escolher o simples em vez do complicado, encontramos espaço para a verdadeira serenidade e alegria, deixando para trás o fardo da ostentação e da superficialidade.” Que possamos seguir esse exemplo. Vamos ajudar a Oficina de Jesus. Padre Quinha vive.
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