Sete vítimas perderam as vidas; acumulado pluviométrico chegou a 548 milímetros em 24h
Larissa Martins
Há 4 anos, em 20 de março de 2022, Petrópolis era atingida pela segunda vez, em um mês, pelas fortes chuvas. Nesta dia, sete pessoas morreram devido a deslizamentos de terra ocasionados pela passagem de uma frente fria sobre a cidade.
As vítimas foram: Carmelo de Souza; Nelson Ricardo Ferreira da Costa, 59 anos; Jussara Berlarmino Souza; Heloisa Helena Caldeira da Costa, 86 anos; Mario Augusto Queiroz Carvalho, 35 anos, Vanila de Jesus da Silva, 15 anos e Miriam Gonçalves do Valle, 32 anos.
Durante a tarde e a noite de domingo, houve a reativação de processos deflagrados no dia 15 de fevereiro de 2022 por conta do temporal. Os rios Piabanha e Quitandinha novamente transbordaram, ocasionando processos de inundação em diversas áreas do 1° e do 2° Distrito.
Conforme os dados registrados pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), as chuvas, resultaram em um acumulado pluviométrico de 548 milímetros em 24h. Somente a estação do São Sebastião registrou volumes acumulados de 207,6 milímetros em 3h.
Em decorrência destes eventos, inundações e deslizamentos generalizados, dentro de um mês, houve um total de 241 vítimas fatais, dentre vítimas soterradas e afogamentos, sendo 234 óbitos registrados no dia 15 de fevereiro.
Segundo o relatório técnico do Governo do Estado do Rio de Janeiro, do Departamento de Recursos Minerais / Serviço Geológico do Estado do Rio de Janeiro e do Núcleo de Análise e Diagnóstico de Escorregamentos, as equipes técnicas de apoio identificaram 611 cicatrizes de deslizamento e produzidos 402 polígonos de risco remanescente, a partir dos quais foram confeccionados 283 relatórios técnicos.
Histórico de deslizamentos
O relatório destaca que Petrópolis apresenta registros de desastres naturais relacionados a
movimentos de massa, ocasionados pelas chuvas de verão, desde o século XIX, período que surgiu, mediante a um planejamento urbanístico conhecido como plano "Povoação-Palácio de Verão", o processo de ocupação urbana do município.
A expansão urbana irregular, condições do meio físico, além das alterações físicas e naturais no município, reforçam a condição suscetível a movimentos de massa e inundações, principalmente quando há o incremento dos índices pluviométricos.
O primeiro indício do aumento das ocorrências de deslizamentos devido a expansão do núcleo urbano ocorreu em janeiro de 1966. As chuvas intensas causaram, além de inundações, deslizamentos e destruição quase que total das lavouras, 80 vítimas fatais, sendo decretado estado de calamidade pública pelo prefeito de Petrópolis da época.
Nas décadas de 1970 e 1980, um aumento expressivo dos deslizamentos, devido avanço urbano ao longo das vertentes associado ao período de maior concentração pluviométrica, ocasionou 11 vítimas fatais em 1977 e 87 vítimas fatais em 1979.
Nove anos depois do último evento, a chuva que atingiu a cidade, em fevereiro de 1988, provocou enchentes, deslizamentos, desabamentos e 171 óbitos, sendo considerado o pior desastre até então na cidade.
Por sua vez, na década de 90, o número de casos de deslizamentos diminui, visto que se tem uma redução, comparadas às décadas anteriores. Em maior ou menor intensidade, as tragédias atravessaram os anos de 2001, 2003, 2007 até 2011, quando a Região Serrana viveu o maior desastre natural do Brasil, com quase mil mortes; 76 em Petrópolis. Em 2013, 33 pessoas morreram.
Em 15 de fevereiro de 2022, após cerca de seis horas de chuva intensa sobre Petrópolis, centenas de deslizamentos foram deflagrados nas encostas do 1° Distrito, majoritariamente entre 17h e 21h, enquanto as bacias hidrográficas da cidade sofriam processos de inundação.
Com a redução da intensidade da chuva e o escoamento da água presente nas ruas alagadas, o cenário encontrado no 1° Distrito, região que registrou os maiores índices pluviométricos da cidade, era de um desastre: centenas de cidadãos soterrados ou feridos e hospitalizados, grande número de desabrigados e desalojados, vias principais e secundárias obstruídas com os materiais mobilizados pelos deslizamentos e inundações, e comprometimento, em diversos pontos da cidade, dos serviços básicos a população como fornecimento de luz, água e telefonia.
Clima
Petrópolis encontra-se em área de domínio tropical, onde a sua posição geográfica, a altitude, o relevo movimentado, aliados à entrada de frentes frias, juntamente com a circulação atmosférica, estabelecem variações climáticas expressivas, tanto em termos de temperatura, como pluviosidade, ao longo das estações do ano.
Em razão da condição topográfica, o relevo atua como fator importante no aumento da turbulência do ar (ascendência orográfica), principalmente nas passagens de frentes frias e linhas de instabilidade, no qual o ar se eleva e perde temperatura, ocasionando fortes e prolongadas chuvas.
Sendo assim, são abundantes as chuvas de concentração/hora, com destaque na vertente meridional da Serra dos Órgãos, onde o município está localizado.
As chuvas intensas se concentram de outubro a março, ocorrendo com maior intensidade no mês de dezembro, quando os índices pluviométricos chegam a 316,6 mm.
No período menos chuvoso, que vai de maio a agosto, o mês de julho apresenta o menor índice pluviométrico com 66 mm. O regime pluviométrico do município acompanha, apesar os índices de umidade sejam elevados, o ritmo característico do interior, ou seja, as precipitações se reduzem no inverno.
A maioria dos desastres ocorridos em Petrópolis foram durante o verão, principalmente nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro, justamente os meses com elevada precipitação contribuindo assim para a saturação do solo e, consequentemente, com o aumento da suscetibilidade de ocorrer movimentos de massa.
O relatório completo está disponível no endereço: https://www.rj.gov.br/drm/sites/default/files/arquivos_paginas/RL_09.2022.01-MTDLG-PETROPOLIS.pdf .
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