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Um Gentleman em Extinção

Henrique Pinheiro - Economista e produtor executivo de cinema

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Jorge Guinle era um gentleman.

E eu sabia, desde o primeiro instante, que estava diante de um personagem em vias de extinção.

Vestia ternos impecavelmente cortados, gravatas Hermès e um perfume inconfundível.

Os cabelos, sempre assentados com gomalina, denunciavam uma disciplina estética rara.

Mas foram os sapatos que mais me chamaram a atenção.

Jorge não era alto algo que claramente o incomodava.

Usava sapatos com uma plataforma interna engenhosa, que lhe acrescentava quase dez centímetros.

A calça, mais longa, encobria com perfeição o artifício.

O caminhar era lento.

Apesar da prática, o equilíbrio cobrava seu preço naquela altura.

Apresentei-me com a formalidade exigida e, como mandava o ritual, exibi meu “pedigree”. Disse que era filho de João Pinheiro Neto. Que ele conhecia.

Não por vaidade, mas por necessidade.                  Naquele universo, saber quem você é e de onde vem era o passaporte para uma convivência aberta e sincera.

Eu tinha 26 anos. Jorge, 71.

Primo dos donos do Banco Boavista, sua primeira solicitação foi objetiva: O aluguel de um cofre.

Queria guardar dólares que mantinha em casa e já não lhe transmitiam segurança.                       Pediu o maior cofre disponível.

Descemos ao subsolo sob o olhar solene do painel "A Primeira Missa no Brasil" , de Candido Portinari, pintado em 1948.

Ali, deixei-o à vontade para guardar seus dólares.

No primeiro encontro, não revelou valores, mas a mala que carregava não deixava dúvidas: Não era pouca coisa.

Cumprida a missão, fomos almoçar no Saint Honoré, restaurante refinado no último andar do então Hotel Meridien.

Entre pratos e memórias, começaram a surgir histórias que atravessavam o século.

Desde a inauguração do Copacabana Palace, por seu tio Octávio Guinle, até as aventuras de Jorginho Guinle, em Hollywood, além da velocidade com que o dinheiro entrava e saía.

Essas histórias ficam para o próximo artigo, que será mais um capítulo do livro que comecei a escrever, Crônica de um Mercado sem Pudor, sobre o mercado financeiro brasileiro e internacional, nos últimos 45 anos.

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