- Ataualpa A. P. Filho
O tempo que puxa o fio da lembrança sabe que a saudade pousa nas recordações de momentos em que a alegria esteve presente. É do conhecimento de todos que a felicidade não é um produto de consumo e não está exposta em vitrines de shopping center. A construção de momentos felizes requer empatia disseminadora de ternura e respeitabilidade.
E também é do conhecimento de todos que a tragédia ganha apelo midiático, enquanto que a felicidade tende a manter-se no silêncio, porém intensa em gratidão. Em síntese, as cenas de violência, principalmente nos centros urbanos, viram notícias, mas o que emerge das confraternizações enaltecedoras da dignidade humana, raramente, ganham destaques nos meios de comunicação. Por isso estou aqui me sentindo no dever de tentar descrever o que vi na tarde de quarta-feira passada (15/04), na casa de Cláudio de Souza, na qual está localizada a Academia Petropolitana de Educação (APE).
No citado dia, os membros da Roda de Leitura, que se formou em 2012, prestaram uma bela homenagem à educadora Maria Francisca de Pinho Valle, pelo profícuo trabalho que realiza. Com os seus 80 anos de idade, mantém-se vibrante na mediação de leitura, na mobilização das atenções de quem se deixa levar pelo tapete mágico no universo dos livros.
Há 14 anos, esses encontros são realizados em torno da produção literária. Vários autores já foram lidos, estudados, debatidos com profundida. De livro em livro, a vida foi destilada com a sensibilidade terna de quem conduz o pensar para despertar a consciência social. As crianciações, por uma ótica crítica, permitiram leituras de mundo por diversos ângulos. A arte literária foi abordada como uma via de acesso ao humano, à vivência em reflexão coletiva.
Quantas páginas lidas! Quantas relembrações! Quantas viagens mágicas! Quantas reflexões! Quantos questionamentos! Quantas dúvidas! Quantas incertezas! Quantos sonhos! Quantos desejos! Quantos abraços! Quantas idas! Quantas chegadas! Quantas despedidas! Quantas lágrimas! Quantos risos! Quantas dores compartilhadas! Quanta solidão desilhada! Quantas mãos dadas! Quantas palavras! Quantos mergulhos nas alegrias e nas tristezas! Quantos laços! Quantos enlaços! Quantos espelhos para o viver! Quantas eternidades em segundos!...
A vida rodou no mundo da roda franciscanamente sem esquecer que a memória está na raiz da história...
A Presidente da Academia Petropolitana de Educação (APE), a professora Sandra Luzia Ferreira Reis Rocha, em reconhecimento da importância desse trabalho, expediu a seguinte Moção de Agradecimento:
“A Academia Petropolitana de Educação, por meio de seus membros, vem, respeitosamente, manifestar sua mais sincera Moção de Agradecimento à Professora Maria Francisca de Pinho Valle, em reconhecimento à sua inestimável contribuição ao longo de mais de uma década de dedicação às RODAS DE LEITURA, atividade literária permanente desta instituição.
Durante esse período, a Professora Maria Francisca de Pinho Valle destacou-se pelo compromisso, sensibilidade e constância na promoção da leitura como prática formativa, cultural e humanizadora. Sua atuação foi fundamental para a consolidação das Rodas de Leitura como espaço de encontro, reflexão e partilha, fortalecendo vínculos entre educadores e reafirmando o valor da literatura no contexto educacional.
Graças ao seu empenho, as Rodas de Leitura mantiveram-se vivas e significativas, reunindo professores e incentivando a formação de uma comunidade leitora ativa, crítica e comprometida. Sua dedicação contribuiu não apenas para a difusão do hábito da leitura, mas também para a valorização do professor como sujeito leitor e mediador de saberes.
Assim, esta Academia registra publicamente sua gratidão e reconhecimento, destacando que o legado construído pela Professora Maria Francisca de Pinho Valle permanecerá como referência e inspiração para as futuras ações desta instituição.”
A professora Angélica Domingas Pacheco da Silva de Proença, em nome dos membros da roda, leu uma carta em que diz:
“A roda alargou de tal maneira que de livro em livro, de escritor em escritor, as leituras foram transformando cada uma e cada um em novos seres sensibilizados pela arte de ler. Neste passo de caminhar o tempo anda juntinho de nós, ganhando uma força tamanha, quanto mais lemos mais Francisca puxa de sua sacola outras leituras e, assim ampliamos outras experiências com mais leituras. Nada se passa em branco. Olha Francisca o que fizemos, companheira: construímos um tempo outro. Tempo de abrir e acessar sentidos, alargar os olhares, a imaginar cenas, a sentir nó na garganta e ficar com a goela seca. Em outra ocasião, o tempo favorecia dar gargalhadas, compartilhar levezas e belezas. Descobrimos que a palavra poética é bela porque é feita de arte, é literatura, em quaisquer circunstâncias, na tristeza, no drama, na comédia, no suspense, na ironia, simplesmente porque é da gênese humana labutar o ato de criar. A roda ganhou vida longa, alçou o grande tempo e permanece em nós.”
A leitura é semente alada que o vento sopra pelos corações. Mas só quem ouve é quem sabe onde ela cai para erguer a força do continuar...
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