Vicente Loureiro esteve na cidade para divulgar “Evidências Urbanas” e falou ao Diário de Petrópolis sobre riscos climáticos, mobilidade, soluções baseadas na natureza e a fiação no Centro Histórico
Jamis Gomes Jr. - estagiário
O futuro de Petrópolis passa por problemas que já fazem parte do cotidiano da cidade. Essa é a avaliação do arquiteto, urbanista e escritor Vicente Loureiro, que esteve em Petrópolis na última sexta-feira (11) para divulgar seu novo livro, Evidências Urbanas. Em entrevista exclusiva ao Diário de Petrópolis, ele apontou três questões que considera fundamentais para o município: a recuperação do passivo deixado pelos eventos climáticos, a mobilidade urbana e a adoção de soluções baseadas na natureza.
Com mais de quatro décadas de atuação na administração pública em áreas relacionadas ao urbanismo, desenvolvimento local e regional e mobilidade, Loureiro afirmou que Petrópolis acumula problemas que precisam ser enfrentados por meio de políticas de curto, médio e longo prazo.
Chuvas e habitação
Para o urbanista, o primeiro grande desafio está relacionado aos impactos provocados pelas chuvas e pelos deslizamentos que atingiram a cidade ao longo dos últimos anos.
“Eu acho que Petrópolis tem um desafio importante, um passivo acumulado de problemas criados pelas intempéries, pelas chuvas, pelos exigentes deslizamentos. É uma das cidades do Brasil que tem mais sofrido com essa temática”, afirmou.
Segundo Loureiro, parte da população ainda vive em condições precárias depois de perder suas casas ou ter sido afetada pelos eventos climáticos. Ele defende que a questão seja transformada em uma política permanente, com metas definidas e ações planejadas ao longo dos anos.
“Tem muitas famílias vivendo em um aluguel social, muitas pessoas ainda em habitação de má qualidade, de más condições, de forma ainda improvisada, que perderam tudo ou quase tudo nesses acidentes climáticos que recorrentemente ocorrem, cada vez mais intensos por aqui”, disse.
Na avaliação do urbanista, Petrópolis precisa estabelecer uma agenda específica para enfrentar o problema e reduzir a vulnerabilidade da população.
“Isso se faz como uma política própria. Tem que desenhar uma política adequada e perseguir metas. Transformar isso numa agenda que no curto, médio e longo prazo possa ser enfrentada”, destacou.
Mais carros não são a solução para o trânsito
Outro ponto destacado por Loureiro foi a mobilidade urbana. Para ele, o aumento da quantidade de veículos, principalmente motocicletas, não representa uma solução para os deslocamentos da população.
“A gente aumentou, e aqui também, muito a taxa de motorização, quer dizer, a quantidade de veículos por pessoa, essa proporção aumentou, vem aumentando muito o número de motocicletas, numa perspectiva de solução individual para a mobilidade, e isso é um equívoco”, afirmou.
O urbanista defende que Petrópolis busque alternativas coletivas para os deslocamentos, com melhorias no transporte público.
“A gente não vai resolver a mobilidade na perspectiva individual. A gente precisa encontrar uma solução para o transporte público, para criar condições do transporte público prover, pelo menos, aquilo que a gente repete mais, as necessidades mais repetitivas da maioria da população, resolver de modo coletivo e não individual”, explicou.
Segundo ele, as características físicas da cidade tornam ainda mais necessário pensar em alternativas ao transporte individual.
“As ruas não cabem, e quanto mais carro você bota, mais difícil fica. Não tem como mudar isso. A forma de mudar é escolher um modo de transporte adequado”, avaliou.
Loureiro citou como exemplo uma tecnologia chinesa de transporte conhecida como veículo leve sobre pneus, semelhante ao VLT, mas sem a utilização de trilhos. Para ele, experiências desse tipo mostram que existem alternativas que podem ser estudadas de acordo com as características de cada cidade.
O urbanista também mencionou medidas adotadas em outros municípios, como a redução dos limites de velocidade e a criação de áreas nas quais a circulação de carros é restringida.
Natureza como aliada contra os impactos das chuvas
Além das políticas de habitação e mobilidade, Loureiro acredita que Petrópolis precisa rever a maneira como ocupa e administra seu território.
“Pelas características do território, geológicas, da situação ambiental, aqui é o lugar, talvez, mais adequado para buscar soluções baseadas na natureza”, afirmou.
A proposta, segundo ele, passa por aumentar a permeabilidade do solo, recuperar áreas verdes e utilizar a própria natureza como parte da estratégia de prevenção aos impactos das chuvas.
“Eu acho que a gente tem que rever alguns conceitos e o modo de urbanizar ou de cuidar de áreas, ter áreas mais permeáveis, revegetar mais, ter mais presença, que a natureza nos ajude a administrar melhor essas enxurradas, essas chuvas mais intensas, esses deslizamentos, usar a natureza como aliada”, explicou.
Fiação também entra na discussão sobre o futuro da cidade
Durante a entrevista, Loureiro também comentou um antigo projeto de aterramento da fiação aérea na Rua do Imperador, na região central de Petrópolis. Segundo ele, a iniciativa estava relacionada ao PRODETUR, programa financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para investimentos em infraestrutura turística no interior do Estado do Rio de Janeiro.
O urbanista contou que participou do projeto durante sua atuação no Estado e que a iniciativa acabou não sendo concluída após a crise financeira fluminense.
“Infelizmente, deu uma crise no Estado, foi aquela crise no governo Cabral e depois atingiu também o governo Pezão e o PRODETUR foi cortado pela metade e não pôde ser concluído. E uma das obras que ficou pela metade foi essa, um lado já resolvido e o outro por resolver”, relatou.
Para Loureiro, a retirada da fiação seria especialmente importante em áreas com grande concentração de imóveis históricos.
“Eu acho fundamental, acho que essa fiação, sobretudo numa cidade com uma paisagem urbana tão singular, não devia permitir isso”, afirmou.
Ele defendeu ainda que o município discuta alternativas para a infraestrutura de telecomunicações, como a instalação subterrânea da rede.
“Eu acho que vale o esforço e é muito importante, porque faz com que a fachada das edificações ganhe visibilidade, você aumenta o valor das construções, valoriza as construções e faz com que as pessoas tenham mais vontade, mais orgulho, mais senso de pertencer ao lugar e os turistas também ficam mais encantados”, destacou.
Na avaliação do urbanista, a questão ganha ainda mais relevância no Centro Histórico, onde estão concentrados imóveis de importância arquitetônica.
“Fiação não combina da maneira como é com a cidade e, principalmente, em áreas mais de qualidade urbana e arquitetônica, como é o caso de Petrópolis”, concluiu.
Livro reúne reflexões sobre o futuro das cidades
As avaliações feitas sobre Petrópolis dialogam diretamente com a proposta de Evidências Urbanas, livro de Vicente Loureiro, publicado pela Editora Outras Letras. A obra reúne artigos produzidos pelo autor ao longo dos últimos anos, muitos deles publicados anteriormente em jornais, revistas e sites especializados.
“Na verdade, é uma coletânea de artigos que regularmente escrevo para os jornais, inicialmente para o Extra, depois para o Correio da Manhã, e para alguns sites, algumas revistas também profissionais, da arquitetura, do urbanismo”, explicou.
Segundo Loureiro, a ideia foi reunir textos que apresentassem sinais das transformações pelas quais as cidades passam e discutir caminhos possíveis para enfrentar seus desafios.
“Então, são evidências dos desafios e das oportunidades que as cidades oferecem. Cidades brasileiras, cidades fora do Brasil, mas experiências, experiências exitosas que animam a gente a acreditar que a vida pode melhorar”, afirmou.
Com 244 páginas, Evidências Urbanas aborda temas como mobilidade, tecnologia, sustentabilidade, desigualdade, novas formas de ocupação urbana e os caminhos possíveis para as cidades. O autor também é responsável por Prosa Urbana (2020) e Tempo de Cidade (2023).
Ao encerrar a passagem por Petrópolis, Loureiro deixou um convite aos leitores interessados em compreender melhor as transformações urbanas.
“Estou lançando aqui, em Petrópolis, esse livro de Evidências Urbanas, um conjunto de crônicas sobre a vida nas cidades e as possibilidades de melhorar, e fica aí o convite para quem quiser ver através desses artigos, ter uma perspectiva mais animadora, de um país melhor”, afirmou.
Veja também: