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Urutau

Ataualpa A. P. Filho - professor

Foto: Pixabay
Foto: Pixabay

Tenho o hábito de observar o comportamento das aves. Não faço nenhum estudo, só observo. Entro no mato, aguço a audição, fico atento aos movimentos e aos cantos para identificar as vocalizações. Faço isso como terapia. Não há contraindicação. Basta uma roupa discreta, nem precisa ser camuflada, um calçado confortável para andar pelas trilhas, muito silêncio e repelente para espantar mosquito.

É um momento em que fico desplugado de tudo. Penso em nada. Toda a atenção é para mover os olhos para enxergar a beleza das aves: a plumagem dos machos, das fêmeas, dos filhotes, as danças de acasalamento, a diversidade dos cantos. O encanto está em avistar as raridades.

Esse gosto pelos pássaros trago da infância. A Marta vai mais além, carrega uma máquina para fotografá-los. Eu não tenho essa habilidade. É necessário centralizar o foco, avaliar a luminosidade para dar o clique. Tudo precisa ser feito em segundos para pegar o ângulo adequado e efetuar uma boa foto. Já tentei. Fiz algumas fotos. Mas não é a minha praia...

Não gosto de vê-los presos em gaiolas, nem em viveiros. Mas sei que há um comércio rentável que cresce na ilegalidade. O triste é saber que os crimes contra a fauna são frequentes. Animais silvestres têm sido muito cobiçados e transportados em péssimas condições para atender a um comércio clandestino. Para que se tenha uma noção dessa ilegalidade, basta dizer que, aproximadamente, nos últimos 10 anos, seis milhões de pássaros foram comercializados ilegalmente, movimentando um total de sete bilhões de reais.

Há um tráfico internacional de animais silvestres que não recebe as devidas atenções das autoridades com o propósito de neutralizá-lo. É triste ver um pássaro engaiolado...

Nesta correria de final de ano, de fechamento de pauta, às vezes, sinto-me privilegiado, quando acordo, às seis da manhã, com o canto de andorinhas na janela do quarto. Não ficam por muito tempo. Vêm, param, cantam e seguem. Moro no nono andar. Creio que seja pela altura do prédio que elas têm vindo por aqui.

No domingo passado (30/11), realizei um sonho: vi um urutau. Vibrei. E não estava distante do meio urbano. Eu o vi quieto em um pedaço de mata sobre um tronco de árvore seco acinzentado. Parecia a continuidade do próprio tronco em que estava pousado.

A plumagem dos urutaus se confunde com os galhos em que ficam estáticos por horas e horas, como se estivessem em um sono profundo, pois os olhos aparentam fechados. Isso ocorre, porque existem duas fendas em suas pálpebras, que permitem observar o que está em volta. Podendo, portanto, defender-se em situação de perigo. Essa “camuflagem” os protege dos predadores.

Em tupi, “urutau” significa “ave fantasma”. Como se trata de uma ave de hábito noturno, com um canto triste, várias lendas surgiram, folcloricamente, em torno dela. Pertence à ordem Nyctibiiformes da família Nyctibiidae. Também é conhecida com mãe-da-lua.

Na região amazônica, proliferou-se a ideia de que as penas da cauda da mãe-da-lua têm o poder de proteger a castidade. Por isso, para preservar a castidade das filhas, as mães arrancavam as penas da ave para fazer vassouras e varrer debaixo das redes delas.

Há também uma lenda, mais corrente na Bolívia, que esse comportamento estático durante o dia e mais ativo durante a noite da mãe-da-lua está relacionado à história de que a bela filha de um cacique, de uma determinada tribo, apaixonou-se por um jovem guerreiro da mesma tribo. Porém o pai dela não gostava dele, portanto, não permitia o relacionado de ambos. Para impedir o namoro, resolveu assassinar o rapaz.

Muito triste, a filha, diante do desaparecimento do seu amado, entrou na mata para procurá-lo. Descobriu assim que ele havia sido assassinado pelo pai dela. Isso a enfureceu. Procurou-o e disse que iria contar esse fato a todos da aldeia.

Sentindo-se ameaçado, temendo uma revolta dos membros da aldeia, resolveu transformar a própria filha em uma ave noturna para que ninguém soubesse do crime que ele havia cometido. O canto triste do urutau consiste nessa melancolia proveniente de uma dor de um amor que não se concretizou pela intransigência de um pai que não quis ouvir o coração da filha.

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