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Vale das Videiras preserva identidade rural enquanto atrai novos moradores e visitantes

Natureza, tranquilidade e espírito comunitário impulsionam transformações na região, que também ganha força como destino de turismo e hospedagem

Foto: Divulgação
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Roberto Jones - especial para o Diário

Estradas cercadas por montanhas, áreas de mata, propriedades rurais, cachoeiras e uma comunidade onde muitos moradores ainda se conhecem. Nas últimas décadas, o Vale das Videiras passou por mudanças importantes, mas preservou características que continuam atraindo pessoas interessadas em uma vida mais próxima da natureza e distante dos grandes centros urbanos.

A região começou a receber novos moradores principalmente a partir da década de 1980, quando ainda tinha infraestrutura limitada, com estradas de terra, pouca iluminação e praticamente nenhum telefone. Na época, o Vale era marcado por grandes fazendas e por uma atividade essencialmente rural.

Segundo José Eduardo, presidente da Associação de Moradores do Vale das Videiras (AMAVALE), foi justamente esse estilo de vida que despertou o interesse dos primeiros novos moradores. “Eram pessoas que buscavam uma vida mais próxima da natureza, com espaço para ter cavalos, andar pelas estradas de terra e viver em um ambiente rural. Não houve uma grande migração de pessoas para a região; o crescimento aconteceu gradualmente, atraindo principalmente aqueles que realmente desejavam esse estilo de vida”, explica.

Uma comunidade construída ao longo de décadas

A organização dos moradores também faz parte da história do Vale. Criada em 1985, a associação comunitária posteriormente se consolidou como a AMAVALE, com o objetivo de representar a comunidade diante do poder público e buscar melhorias para a região. Mais de quatro décadas depois, a entidade continua atuando na aproximação entre moradores e na defesa dos interesses locais.

A própria dinâmica da região contribui para esse sentimento de pertencimento. Segundo uma estimativa da associação, o Vale possui cerca de 3 mil moradores e aproximadamente 400 sitiantes, embora não haja um censo específico atualizado.

José Eduardo conhece de perto as transformações. Ele chegou ao Vale em 1985, quando mantinha um sítio na região e levava os quatro filhos para vivenciar a rotina do campo. Há cerca de cinco anos, passou a morar definitivamente no local. “Um dos objetivos que me trouxe para cá foi justamente proporcionar aos meus quatro filhos uma experiência diferente, ligada à vida no campo: cuidar de galinhas, vacas, plantações e vivenciar o cotidiano de uma fazenda”, conta.

Natureza como patrimônio

A paisagem natural também mudou ao longo das décadas. Segundo José Eduardo, durante um período, a região em direção a Paty do Alferes era marcada pela produção de tomates, com uso intenso de defensivos agrícolas. Com a transformação dos sistemas de cultivo e a perda de espaço da agricultura tradicional, a natureza começou a se recuperar.

Hoje, ele afirma que a fauna voltou a ser uma presença marcante no Vale. “Já foram observados animais como onças e raposas, além de uma grande variedade de aves, incluindo muitos tucanos. Essa recuperação ambiental é hoje um dos grandes patrimônios do Vale das Videiras”, destaca.

Montanhas, trilhas e cachoeiras também ajudam a explicar a procura pela região. O Vale está situado a cerca de 850 metros de altitude e possui pontos que chegam a aproximadamente 1.800 metros. Há trilhas em direção à Maria Comprida e ao Morro do Cuca, além de cachoeiras e poços naturais cercados pela mata.

Novos moradores e novas formas de ocupar a região

Depois da pandemia, o Vale passou a receber também novos perfis de moradores. Entre eles estão aposentados, pessoas que trabalham remotamente e famílias mais jovens, muitas com filhos pequenos, que procuram uma rotina mais tranquila. Apesar das mudanças, José avalia que a chegada dessas pessoas não descaracterizou a região. “Muitas das pessoas que chegam procuram justamente aquilo que sempre diferenciou o Vale: a vida comunitária, o contato com a natureza e o ambiente rural”, afirma.

Outra transformação importante foi o asfaltamento da estrada de acesso, ocorrido por volta de 2018. Durante décadas, a estrada de terra funcionou, nas palavras dos próprios moradores, como um “filtro” natural. “Nós costumávamos brincar que eram os ‘filtros do Vale’: quem chegava até aqui normalmente era porque realmente queria estar aqui”, lembra.

O acesso mais fácil contribuiu para aproximar a região de visitantes e novos moradores, mas também alterou hábitos tradicionais, como a possibilidade de circular a cavalo pelas estradas. Ainda assim, a presença das áreas naturais ajuda a manter parte da característica original.

Turismo ganha espaço

O Vale das Videiras também se consolidou como destino para quem vem de outras partes de Petrópolis e de fora da cidade. O pequeno centro comercial reúne restaurantes, lojas e serviços, enquanto a Feirinha do Vale se tornou um dos principais espaços de convivência da região. Realizada em uma praça na área central, a feira reúne produtores do Vale, de Araras e de localidades próximas. Além da comercialização, o evento ganhou uma função social. “Muitas pessoas frequentam o local para encontrar amigos, conversar e aproveitar o ambiente”, conta José Eduardo.

A região também está inserida em um circuito de turismo rural, com produtores que recebem visitantes e oferecem experiências ligadas à agricultura e à vida no campo. Entre os atrativos estão propriedades produtoras de frutas como framboesa e amora e o Alambique do Vale.

Outro movimento recente é o crescimento das hospedagens por temporada. O aumento de imóveis destinados ao aluguel, especialmente pelo Airbnb, trouxe uma nova atividade econômica e ampliou o fluxo de visitantes. “É interessante observar que muitas pessoas que se hospedam acabam se encantando com o Vale e retornam. Já existem reservas feitas com bastante antecedência, inclusive para o final do ano e para janeiro do ano seguinte”, afirma.

Crescer sem perder a essência

As mudanças na infraestrutura, no perfil dos moradores e no turismo mostram que o Vale não permaneceu parado no tempo. Ao mesmo tempo, natureza, tranquilidade, ambiente rural e convivência comunitária continuam sendo elementos centrais da identidade local.

Para José Eduardo, preservar essa combinação será fundamental diante das transformações que ainda devem ocorrer. “A natureza, as montanhas, as trilhas, o ambiente rural, a tranquilidade e, principalmente, o espírito comunitário continuam sendo elementos fundamentais da identidade do Vale das Videiras”, destaca.

Mais de quatro décadas depois da chegada dos primeiros sitiantes, a região segue atraindo quem procura uma relação diferente com o lugar onde vive ou passa alguns dias. “Talvez seja justamente essa combinação que explique por que tantas pessoas chegam, conhecem o lugar e acabam se apaixonando por ele. O Vale das Videiras continua sendo um lugar para quem procura uma relação mais próxima com a natureza e uma forma de vida diferente dos centros urbanos”, conclui.

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