Darques Júnior - Estagiário
Com o avanço das tecnologias e o alcance exponencial delas em nossas vidas, tem sido ainda mais comum o uso de inteligências artificiais generativas (IAs). Dados do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (CETIC) revelam que 47% dos usuários de internet de 16 anos ou mais usam ou já usaram o ChatGPT.
Além disso, os dados ainda apresentam desengajamento e vulnerabilidade cognitiva: 34% concordam que "não vale a pena pesquisar" a veracidade de uma informação, e 33% dizem que isso não faz diferença para a vida deles.
A psicóloga Cláudia Melo comenta que a inteligência artificial não só trouxe muitos benefícios, mas também gerou reflexões sobre a relação das pessoas com o mundo. "Quando nos acostumamos a respostas imediatas, soluções rápidas e conteúdos feitos para os interesses individuais podem ter mais dificuldade em lidar com aquilo que faz parte da vida real: a espera, os limites, as diferenças e as frustrações", disse.
Cláudia ainda diz que, se uma pessoa passa horas consumindo versões editadas da realidade, ela pode começar a acreditar que sua própria vida, seu corpo ou suas conquistas são insuficientes. Isso aumenta sentimentos de inadequação, ansiedade e baixa autoestima. "O problema é que hoje muitas dessas comparações acontecem com imagens, histórias e padrões que não representam a vida como ela é."
O CETIC, após um exercício realizado para classificar informações como verdadeiras ou falsas, registrou que 41% dos voluntários tiveram baixo desempenho, pontuando de dois a cinco em oito. Os jovens entre 16 e 24 anos tiveram o pior desempenho, representando 25% do grupo de pior desempenho e apenas 13% do grupo de melhor desempenho.
Os dados ainda apresentam que 41% das pessoas têm contato diário com deepfakes (imagens, vídeos ou áudios que aparentam ser fabricados por IAs generativas), além de 13% não saberem identificar quando isso ocorre.
A psicóloga falou que a inteligência artificial pode ser uma aliada quando promove informação, organização e acesso ao cuidado, mas pode se tornar um obstáculo ao ocupar o lugar das relações, do lazer, do descanso e da convivência humana. "A questão central não é demonizar a tecnologia."
Cláudia ainda destaca a importância da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) por ajudar na compreensão dos hábitos, na identificação dos gatilhos e no desenvolvimento de formas saudáveis de usar a tecnologia. "É preciso lembrar que nenhum algoritmo substitui o valor de um vínculo verdadeiro, de uma conversa presencial ou da experiência humana de estar com o outro", concluiu.
Dentre os aplicativos mais compulsivos, 54% dos usuários dizem usar o WhatsApp "praticamente o tempo todo", e mais 31% declararam usar o aplicativo "várias vezes ao dia", chegando à marca de 85% de uso quase contínuo. O CETIC ainda apontou que 29% das pessoas declararam que os feeds de vídeos curtos, como os do TikTok, são o segundo meio mais utilizado para se informar, atrás apenas dos aplicativos de mensagens.
O especialista em tecnologia da informação e segurança digital Arthur Lebrum falou que muitas plataformas utilizam algoritmos que priorizam conteúdos com maior potencial de retenção, aumentando o tempo de permanência dos usuários. "Essa estratégia está ligada a modelos de negócio baseados em publicidade e coleta de dados", explicou.
O especialista comentou que, do ponto de vista ético, há diversas divergências, uma vez que, enquanto as empresas defendem que oferecem experiências personalizadas, os críticos argumentam que essas práticas podem explorar vulnerabilidades psicológicas e prejudicar o bem-estar por meio do vício no uso de telas, gerados pela dopamina liberada por elas.
Arthur ainda explica que as IAs mais humanizadas tendem a criar interações mais naturais e emocionalmente envolventes, podendo levar os usuários a recorrerem com maior frequência a esses sistemas em busca de informação, companhia ou apoio emocional. "Como consequência, pode surgir uma dependência excessiva da tecnologia, reduzindo interações humanas e aumentando a dificuldade de desconexão."
Sobre as iniciativas dentro da indústria tecnológica voltada ao "design humano e ético", que visam o bem-estar digital, o especialista comenta que movimentos como o "human-centered design" e iniciativas de bem-estar digital buscam equilibrar engajamento e saúde mental. "Apesar dos avanços, ainda existem desafios para conciliar esses objetivos com interesses comerciais."
Arthur Lebrum ainda destaca que muitos pais já reconhecem que o excesso de tempo de tela torna seus filhos facilmente irritáveis e dispersos. "Talvez as maiores mudanças surjam dessa necessidade de não tornar as crianças dependentes desse design atual, uma vez que se espera que os pais sejam mais rigorosos com os filhos do que consigo mesmos", concluiu.
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